Como a ideologia da saúde mental perpetua uma guerra às emoções

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Traduzido por Celina Vilas-Boas

As “epidemias” de saúde mental dominam agora o discurso público, com taxas crescentes de diagnósticos de ansiedade, depressão, autismo, transtorno bipolar e PHDA, para citar alguns. Ao mesmo tempo, o mundo ocidental enfrenta a decadência social e económica: insegurança no emprego, rendas inacessíveis, pessoas sem casa, infraestruturas em decadência, aumento do peso da dívida, necessidade de bancos alimentares e custos de vida impossivelmente elevados. A promessa de que cada geração viveria melhor do que a anterior evaporou-se.

Os dados populacionais refletem essa crise. Uma análise transnacional de 2023 com questionários de 29 países, descobriu que, pelos 75 anos, metade das pessoas já terá passado por pelo menos um problema de saúde mental, geralmente com início na juventude. A investigação pinta um quadro ainda mais sombrio. Numa investigação realizada no Reino Unido em 2019 com 1.000 jovens, 68% acreditavam ter passado por um problema de saúde mental, e os encaminhamentos para menores de 18 anos aumentaram 45% em apenas dois anos. Outro estudo publicado naquele ano descobriu que 42% das crianças de 11 a 15 anos preenchiam os critérios para um problema de saúde mental usando questionários padronizados.

Apesar do acesso sem precedentes a terapia, medicação e novos tratamentos, a saúde mental da população não está a melhorar. Na verdade, está a deteriorar-se. As taxas de suicídio estão a aumentar. Mais pessoas relatam ansiedade e depressão. A diferença de mortalidade entre aqueles classificados como portadores de uma condição psiquiátrica grave e a população em geral está a aumentar. Os pedidos de invalidez por motivos de saúde mental continuam a aumentar. Comparações internacionais mostram declínios em todos os grupos demográficos, com os países de língua inglesa apresentando os piores resultados e os jovens de 18 a 24 anos sendo os mais afetados. Essas tendências são opostas ao que vemos em muitas outras áreas da medicina. O cancro, as doenças cardíacas e a diabetes tiveram melhorias significativas nos resultados. A saúde mental, não.

A maioria das respostas institucionais simplesmente exige mais: mais detecção precoce, mais serviços, mais intervenções. Mas acrescentar mais do mesmo pode piorar a situação se os próprios fundamentos dos nossos conceitos e práticas forem falhos.

Por que não sabemos do que estamos a falar

O boom na conscientização sobre saúde mental baseia-se na suposição de que temos uma ideia clara e objetiva do que realmente são “saúde mental” e “doença mental”. Mas não temos.

A Organização Mundial da Saúde define saúde mental como um estado em que uma pessoa «desenvolve as suas habilidades, lida com o stress normal da vida, trabalha de forma produtiva e contribui para a sua comunidade». Esta definição está repleta de termos subjetivos e difíceis de definir, como «realizar», «lidar», «stress normal», «produtivamente», «frutíferamente» e «contribuir». Nada aqui ancora o conceito a factos mensuráveis.

Todas as definições de saúde e doença mental partilham este problema: são baseadas em crenças, em vez de serem empiricamente comprovadas. Como não temos testes objetivos para detetar perturbações mentais ou as suas causas (além de excluir doenças físicas), não podemos definir um «caso» da mesma forma que grande parte da medicina física o faz. As classificações psiquiátricas são descrições (e bastante pouco fiáveis), não explicações.

Diagnósticos psiquiátricos como marcas comerciais

O diagnóstico é um sistema de classificação baseado em explicações. Um mecânico de automóveis usa o «diagnóstico» para identificar a causa de um problema no motor, da mesma forma que um técnico de TI executa diagnósticos no seu computador para identificar a causa de um programa que não funciona. Na medicina, o diagnóstico é o processo de identificar a causa imediata dos sintomas. O diagnóstico aponta para a patologia e orienta o tratamento.

Na psiquiatria, no entanto, os diagnósticos não podem apontar causas. A maioria não tem marcadores biológicos conhecidos. Se perguntarmos «O que é a depressão?», só podemos descrever experiências como humor persistentemente baixo e pensamentos negativos. Somos incapazes de identificar uma anomalia biológica. Dizer que «o mau humor é causado pela depressão» leva ao que é conhecido como tautologia — uma armadilha de pensamento circular ilustrada por duas perguntas simples: «O que está a causar esse mau humor?», resposta «depressão», «Como sabe que é depressão?», resposta «porque eles estão de mau humor».

Nesse sentido técnico, os diagnósticos psiquiátricos não são diagnósticos de todo. No entanto, eles espalharam-se globalmente e ganharam enorme autoridade. Por quê? Porque o seu surgimento coincide com o agravamento da insegurança económica e a decadência política no Ocidente. À medida que o sofrimento aumenta, torna-se uma nova oportunidade de mercado. Um vasto Complexo Industrial da Saúde Mental (MHIC) agora lucra com a individualização do sofrimento, desviando a atenção das causas estruturais para a patologia pessoal. O MHIC redireciona a raiva para longe da esfera política, onde a concentração oligárquica de riqueza molda a vida das pessoas, e para a esfera privada da autoavaliação individual.

Se redirecionássemos a atenção para fora, poderíamos buscar estratégias socioeconómicas que abordassem os determinantes materiais do sofrimento: pobreza, moradia precária, discriminação, injustiça social, exclusão. Mas fazer isso dentro de uma ordem capitalista em decadência, cada vez mais incapaz de oferecer proteções e bem-estar importantes para a população, pode ser irrealista. Em vez disso, vemos a raiva canalizada para várias rebeliões mercantilizadas (qualquer ativismo que pouco contribui para diminuir o poder da classe dominante oligárquica) e um MHIC em expansão que internaliza o sofrimento em vez de contestar as suas origens.

A guerra às emoções

A cultura ocidental pós-Iluminismo idolatra a racionalidade e desconfia das emoções. A palavra emoção vem da raiz latina «emovere», sendo que o e é um prefixo que significa «para fora» ou «de», e movere é um verbo que significa «mover». Emoção, portanto, refere-se a um movimento motivado (em direção a algo ou afastando-se de algo). Sem emoção, não faríamos nada.

Na cultura de desempenho hipercompetitiva de hoje, as emoções são vistas como ameaças à eficiência. A forma mais dominante de terapia — a terapia cognitivo-comportamental — tem como premissa incentivar o «pensamento científico» para disciplinar sentimentos indisciplinados. O aumento na prescrição de psicotrópicos reflete um impulso para entorpecer a intensidade emocional. Mesmo as emoções socialmente valorizadas devem ser reformuladas como cognição (como em «inteligência emocional») para serem palatáveis.

Mas a emoção é a base da conexão humana. Amor, raiva e preocupação são emoções destinadas a manter os outros vividamente presentes nas nossas mentes. Quando a emoção é patologizada, os laços sociais enfraquecem e a solidão, a insegurança e a vergonha prosperam.

As nossas mentes são sistemas de criação de significado; constantemente tecemos histórias que dão coerência à experiência. A ideia de que os diagnósticos psiquiátricos são a causa da nossa alienação, desânimo, ansiedade e infelicidade tem consequências. A linguagem e a mitologia diagnóstica estão por toda parte hoje em dia. O comentário de um professor, uma tendência no TikTok, o diagnóstico de um amigo e a preocupação dos pais podem levar ao caminho da patologização. A linguagem diagnóstica remodela o nosso sentido de identidade e direciona o comportamento, muitas vezes fazendo-nos suspeitar das nossas próprias emoções.

Será que, inadvertidamente, popularizámos uma forma de «literacia em saúde mental» que fomenta o medo das emoções? Será que estamos a encorajar os jovens a interpretar as tempestades normais da vida como sinais de defeitos internos? As evidências sugerem que estes riscos são reais. Continuamos escravos da fantasia de que a vida mental pode ser analisada como código informático ou curada como infecções bacterianas.

Reabilitar a emoção

Um movimento progressista de saúde mental deve restaurar a emoção ao seu devido lugar na vida humana e reafirmar o nosso impulso de nos conectarmos e encontrarmos significado além do interesse próprio. Isso requer honestidade:

  • Temos opiniões, não verdades objetivas, sobre as causas do sofrimento.
  • Os medicamentos psiquiátricos produzem alterações químicas; não corrigem desequilíbrios conhecidos.
  • A maior parte do sofrimento reflete adversidade, não cérebros danificados.
  • Emoções intensas não são perigosas – são humanas.

As abordagens bem-sucedidas não vêem as pessoas como máquinas com defeito, mas como seres humanos que enfrentam dilemas difíceis. Os hospitais não estão cheios de cérebros defeituosos, mas de pessoas que passaram por dificuldades, especialmente os jovens, para quem as adversidades são mais dolorosas.

Não podemos, sozinhos, corrigir as forças estruturais que corroem o bem-estar.

Mas podemos resistir à guerra cultural contra as emoções, desafiar a narrativa de que angústia é sinónimo de desordem e ajudar a re-humanizar a forma como entendemos o sofrimento.

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