Por Tiago Pires Marques e Mattia Faustini

Em abril de 2022, num festival de cinema italiano em Lisboa, foi exibido Matti da slegare (‘Loucos a desamarrar’), um documentário de 1975 feito para apoiar a luta de Franco Basaglia pelo fim dos manicómios. No final, o realizador Silvano Agosti e José Ornelas ficaram à conversa com o público. Ornelas, psicólogo comunitário, participou desde os anos 70 na luta contra os hospitais psiquiátricos e em 2011 teve um papel decisivo no fecho do Miguel Bombarda, do Hospital do Lorvão e da Colónia Agrícola de Arnes. Na plateia havia muitos estudantes e profissionais, alguns a trabalhar ainda hoje na desinstitucionalização. Basaglia ainda era para eles uma referência. Foi Ornelas quem trouxe para a conversa um filme português. Em 1974, nas “sessões de esclarecimento” que acompanharam os primeiros passos da reforma, projetava-se Jaime, de António Reis e Margarida Cordeiro.

A conversa foi longa e emotiva. Quase meio século depois, um filme sobre um manicómio ainda mobilizava pessoas em torno de uma promessa de reforma que ficou por cumprir.

Quando se conta a história da reforma psiquiátrica, fala-se sobretudo de leis e de discussões entre psiquiatras. Fala-se menos de quem levou uma câmara para dentro dos hospitais para mostrar imagens destes mundos separados da sociedade e desconhecidos da grande maioria das pessoas. Em Lisboa estrearam três filmes destes entre 1974 e 1977, dois no Júlio de Matos e um no Miguel Bombarda. Estes filmes são documentos raros e valiosos. A quem hoje critica as instituições psiquiátricas pode interessar tanto a maneira como cada um denunciou o manicómio, como o que aconteceu aos filmes após a sua aparição.

Três filmes, três entradas no hospital

Jaime (1974) nasce do interesse de Margarida Cordeiro, psiquiatra no Hospital Miguel Bombarda, pelos desenhos e cartas que Jaime Fernandes ali deixara. Jaime, trabalhador rural nascido na Covilhã em 1900, foi internado aos 38 anos com um diagnóstico de esquizofrenia paranoide. Passou mais de três décadas no hospital, onde morreu em 1969. O filme foi rodado ainda durante o Estado Novo, enfrentando alguns obstáculos, e ficou retido pela censura até depois do 25 de Abril, estreando a 2 de maio de 1974, no Cinema Império.

Não é um filme de denúncia no sentido habitual. António Reis disse na altura que queria entrar na arte e na vida de Jaime, mais do que no mundo hospitalar. Não há um narrador a explicar o que vemos. A câmara espreita por um furo para dentro do Pavilhão de Segurança, onde uns doentes estão parados e outros andam de um lado para o outro, e onde os animais entram e saem à vontade. Só depois se percebe que estamos no panótico de Rilhafoles (Hospital Miguel Bombarda), com a sua fonte seca ao centro. Num corte rápido passa-se para uma porta fechada, de cujo buraco sai um braço caído que não se mexe. Na 8.ª enfermaria há homens deitados, tapados até à cabeça por mantas imaculadas. Ficamos sem saber se a imagem fala da higiene do hospital ou de morte. E há a escrita de Jaime: “Oito vezes Jaime morreu já cá”. A denúncia é oblíqua, feita de associações entre imagens, como num sonho.

Júlio de Matos… Hospital? (1974) é um documentário curto pensado para denunciar as condições então pavorosas deste manicómio. Na primavera e no verão desse ano, José Carlos Marques, então estudante de medicina, voltou várias vezes ao Hospital Júlio de Matos com colegas e uma câmara Super 8. “Eu entrei por ali adentro com os meus colegas e a gente fomos vasculhar tudo e mais alguma coisa”, contou mais tarde. O que filmou é difícil de ver: camas com fezes, corpos nus, feridas, nenhum cuidado próprio de hospital percetível. O narrador lembra que o hospital fora apresentado, na inauguração em 1942, como um dos melhores da Europa, atribuindo a decadência ao regime deposto. A degradação do edifício aconteceu durante as décadas do Estado Novo, que coincidiram com a transformação do hospital em depósito de pessoas tornadas doentes crónicos.

Os internados quase não falam. A voz do narrador ocupa a banda sonora; o primeiro som do próprio hospital, já a meio do filme, vem da cozinha, com os tachos ao lume, e depois do murmúrio do refeitório.

O Jardim dos Esquecidos (1977) volta ao Júlio de Matos três anos depois, a convite do diretor, João Silva. O título cita I giardini di Abele (1968), de Sergio Zavoli, o documentário da televisão italiana que pôs Basaglia no ecrã. Mário Cabrita Gil acompanha o Grupo Terapêutico de Teatro e ouve doentes, profissionais e pessoas na rua sobre a fronteira que separa o hospital da cidade. Descreveu o filme como militante, “mas não no sentido político; no sentido humano”.

Há doentes em grupo, nos ensaios de teatro e noutras atividades, mas o filme mostra-os mais vezes sozinhos, cá fora, a andar pelos caminhos do hospital sem ir a lado nenhum, ou a beber da fonte. Na rua, as pessoas entrevistadas acham que eles se podem reabilitar. O filme fecha com uma mulher, Elvira, que sobe as escadas de um pavilhão e vai sentar-se numa cama ao fundo de uma enfermaria vazia, a olhar pela janela. Cabrita Gil chegou a pensar dar ao filme o nome dela.

A voz, o obsceno e o traço

Os três filmes partilham um objetivo, denunciar a desumanização do hospital psiquiátrico, mas escolhem linguagens muito diferentes.

O Jardim dos Esquecidos escolhe a voz como entrada no mundo dos internados. Como Zavoli fizera em Gorizia, Cabrita Gil deixa os “doentes” falar para a câmara, contando as suas próprias histórias de vida, contestando a segregação e as restrições à liberdade. A voz é deixada também às ruas da cidade, interpelando os transeuntes sobre esta matéria.

Júlio de Matos… Hospital? denuncia através daquilo a que podemos chamar a exibição do obsceno: o que não devia ser mostrado e se mostra precisamente para chocar, como as fotografias dos campos de concentração. A pergunta implícita é a de Primo Levi, se isto é um homem, transposta para a instituição: se isto é um hospital.

Em Jaime já não havia voz a que recorrer, pois o homem evocado morrera alguns anos antes. Ficaram desenhos, cartas, uma fotografia, frases soltas como “Ninguém. Só eu”, e é com esses traços que Reis e Cordeiro trabalham, a par do braço na porta e das mantas da enfermaria. O hospital surge como um túmulo onde se guardam corpos ainda vivos. Jaime é retratado como desenhador e pintor, autor de imagens de animais que quase extravasam das folhas.

Os filmes como fonte histórica

Os processos clínicos e os relatórios dos hospitais permitem saber quem foi internado, com que diagnóstico, que tratamento recebeu, quando morreu. Sabe-se muito menos do estado das camas e da roupa, do que se comia, de como passavam os dias. O narrador de Júlio de Matos… Hospital? anuncia logo no princípio os quatro problemas do hospital, “roupa, higiene, alimentação e terapêutica”. A Super 8 vai registando estas realidades do quotidiano hospitalar de pavilhão em pavilhão. 

Entre Jaime, feito sob censura, e O Jardim dos Esquecidos passaram só três anos. José Carlos Marques entrou no Júlio de Matos logo a seguir ao 25 de Abril e atribuiu ao Estado Novo tudo o que lá encontrou. Cabrita Gil, em 1977, entra a convite do diretor num hospital que já não parece ter pressa de mudar. No lugar dos ideais revolucionários, O Jardim dos Esquecidos mostra uma lógica mais pragmática, a de “humanizar” os doentes e gerir a loucura, com o medicamento como símbolo.

Como notou Clamote na sua tese sobre a saúde no cinema, Júlio de Matos… Hospital? é um filme construído com cuidado, tanto no tratamento das imagens como na banda sonora, para sugerir leituras políticas e intensificar o choque. A montagem faz os ruídos animalescos captados no hospital aparecerem durante a preparação da comida. As imagens dos corpos nus e deformados são impressionantes. É essa animalização, produzida pelo abandono, que o filme quer denunciar.

O que ainda podem estes documentários fazer

O destino dos três filmes diz muito sobre os limites da denúncia através de documentários.

O mais chocante, Júlio de Matos… Hospital?, teve uma vida pública curta. As imagens do obsceno são difíceis de suportar. O choque pode ser eficaz no momento da visualização, mas a vida do filme é breve. Susan Sontag escreveu, a propósito das fotografias de guerra, que o outro aparece aí como alguém para ser visto, não como alguém que também vê. Os corpos nus do Júlio de Matos também não olham. Um filme que denuncia a desumanização pode, sem querer, fixá-la e, de algum modo, reproduzi-la. 

Do filme-choque de 1974 pode ficar no espectador uma ideia forte: é preciso humanizar o hospital psiquiátrico. Porém, a “humanização” é justamente o que O Jardim dos Esquecidos, três anos depois, já mostrava como forma de gerir a loucura, não de a transformar.

O filme que ficou como emblema da opressão psiquiátrica em Portugal foi Jaime, ou seja, o que menos pretendia denunciar. É hoje um clássico do documentário português, está disponível em acesso aberto, e há militantes da desinstitucionalização que o usam como filme de combate e de sensibilização. Reis e Cordeiro não dão diagnósticos nem números e não dizem o que pensar de Jaime ou do hospital. Mas parte da força do filme vem de Jaime ter sido um desenhador fora do comum, hoje com nome no mundo da art brut. Os outros internados do Bombarda, os que aparecem debaixo das mantas, não deixaram obra, tanto quanto sabemos. Mas não é preciso talento para que possamos reconhecer as vidas que ali se perderam. De resto, não fosse o interesse da própria Margarida Cordeiro, que ali trabalhara e se ocupara da recolha cuidadosa da obra de Jaime, boa parte daquilo em que hoje reconhecemos o talento deste artista talvez não nos tivesse chegado, se é que não se teria perdido por inteiro.

Entretanto, a crítica das instituições psiquiátricas mudou de vocabulário. A lei de saúde mental de 2023 foi escrita já na língua dos direitos, a da Convenção da ONU sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência. Os filmes dos anos 70 não falavam ainda a língua jurídica dos direitos. Queriam mostrar que havia ali alguém, numa voz, num corpo, fazendo desenhos. Foi com estes corpos que o manicómio passou a ser, para muita gente, uma coisa politicamente insuportável. 

Hoje, quem é colocado sob cuidados psiquiátricos vive geralmente fora dos hospitais, em casa, só ou ao cuidado de um familiar, em residências, lares e casas de saúde. As perguntas a fazer são, por isso, outras: como se possibilita o acesso das pessoas ao trabalho, ao convívio, à cultura, aos espaços públicos? Quem decide as horas de sair e as visitas, quem mexe no dinheiro de quem vive nesses lugares? Qual a autonomia real das pessoas, incluindo a que vem de ter uma ocupação e uma fonte de rendimento digno? E que possibilidades terapêuticas existem para além da medicação? Uma casa no meio de um bairro pode ser tão fechada como um pavilhão. E pode, além disso, ser mais invisível e estar fora do alcance de qualquer olhar exterior. Como são invisibilizados aqueles que hoje sofrem da mesma solidão que outrora atingia os corpos contidos e vigiados nos hospitais?

Este texto retoma, de forma abreviada e apenas para o caso português, o capítulo “A voz, o obsceno e o traço: estéticas da denúncia audiovisual dos hospitais psiquiátricos”, de Tiago Pires Marques e Mattia Faustini, em Tiago Pires Marques e Sílvia Portugal (org.), Saúde Mental e Direitos Humanos em Portugal e no Brasil: História, Epistemologias, Políticas e Ativismos, Coimbra, Imprensa da Universidade de Coimbra / CES, 2025. Sobre estes filmes, ver também T. Clamote, A Saúde no Cinema: Imagens em Movimento na Estruturação de um Campo de Práticas, tese de doutoramento, Iscte, 2021.

Artigo anteriorMovimento Ouvir Vozes: um Movimento de histórias, uma história do Movimento
Tiago Pires Marques
Investigador no CHAM, Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, Universidade Nova de Lisboa. Doutorado em História no Instituto Universitário Europeu de Florença, com a dissertação Crime and the Fascist State (Routledge, 2016). Realizou o seu pós-doutoramento entre 2008 e 2013, com o projeto “Ciência, religião e subjetividades”, no Institut d’Histoire et de Philosophie des Sciences et des Techniques (Ecole Normale Supérieure - Universidade de Paris 1), Cermes3 (CNRS) e na Universidade Católica Portuguesa, no âmbito do qual coordenou o livro Experiências à deriva. Paixões religiosas e psiquiatria na Europa - Séculos XV a XXI (Cavalo de Ferro, 2013). Investiga a história dos modelos de saúde mental na sua relação com a medicalização da vida e com a história dos direitos humanos. Interessa-se especialmente pelos saberes, propostas políticas e alternativas à psiquiatria produzidas pelos movimentos de utentes no campo da psiquiatria. De entre as suas publicações recentes, destaca-se o livro Legitimidades da Loucura. Sofrimento, luta, criatividade e pertença (Edufba – Editora da Universidade Federal da Bahia, 2018; coord. em colaboração com Mônica Nunes) e A Saúde Reinventada: Novas perspetivas sobre a medicalização da vida (CES/ Almedina; coord. em colaboração com Sílvia Portugal).

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui