Movimento Ouvir Vozes: um Movimento de histórias, uma história do Movimento

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Há muitas formas de apresentar o Movimento Ouvir Vozes. Precisamente por ser um movimento, nem as suas fronteiras, nem a sua estrutura são rígidas. Um movimento quer-se dinâmico, orgânico, vivo. Isso é claro tanto pelas mudanças que se notam ao longo das suas quase quatro décadas de existência, como pelas diferenças entre as suas ramificações, de continente para continente, de país para país, de cidade para cidade, de grupo para grupo. No entanto, o Eduardo Leão, fundador de um dos primeiros grupos de ouvidores de vozes no Brasil e actual membro do conselho da Intervoice, numa das muitas conversas em que me desafia e expande o pensamento, apontou algo que também eu acredito ser fundamental: é que este é um movimento de histórias. Histórias difíceis, histórias de sobrevivência, histórias de superação, histórias que interligam pontos da história de cada um, e histórias que interligam a vida de cada um com a vida de muitos outros. Não será de estranhar, portanto, que o próprio Movimento comece com uma história.

A história do Movimento Ouvir Vozes começa num hospital psiquiátrico, igual a tantos outros, na Holanda, em 1987. As duas personagens principais têm algo em comum: ambas têm crenças muito fortes, ainda que contrárias: Patsy Hage, inspirada pelo livro “A origem da consciência no colapso da mente bicameral” de Julian Jaynes (que defende que a consciência e a capacidade de introspecção estavam, nos primeiros humanos, dependente de alucinações auditivas) acredita que as vozes têm uma mensagem que deve ser escutada; Marius Romme acredita que as vozes são sintomas de uma doença que devem ser ignorados e suprimidos. Além do conteúdo das suas crenças, estas duas personagens têm outra diferença determinante: enquanto que Patsy é paciente do hospital, Marius é ali psiquiatra.

Depois de muita discordância, de muitos encontros neste braço de ferro entre “as vozes são reais”/”as vozes não são reais”, Patsy pergunta:

“se tu acreditas num deus que não ouves nem vês, como me podes pedir que não acredite nas vozes que eu sim ouço?“

Patsy começou a ouvir vozes quando tinha oito anos. Enquanto brincava no sotão, o lenço que tinha ao pescoço pegou fogo numa vela; ela lembrava-se de descer as escadas a correr até à mãe, convencida de que ia morrer. Foi levada para o hospital com queimaduras graves e foi lá que as vozes falaram com ela pela primeira vez. Ouviu-as durante o resto da vida. De protectoras na infância, passaram a tormento na adolescência, o que a levou, numa espiral descendente, a cruzar-se com Romme no hospital. A medicação não silenciava as vozes, excepto com doses tão elevadas que ela se sentia totalmente entorpecida e sem interesse pela vida, o que não era algo que ela estivesse disposta a aceitar. Patsy foi incansável: procurou informação e não baixou os braços; apesar do estigma do diagnóstico e da força da instituição que a apontava como louca, ela não desistiu da validade do seu próprio pensamento e da importância de pensar sobre as suas experiências.

No entanto, toda esta tenacidade poderia facilmente ter sido rotulada como falta de insight. O que permitiu que esta história fosse diferente é que Marius Romme se dispôs a ouvir. Ainda que a sua crença estivesse respaldada pela instituição psiquiátrica e o selo de “ciência” que esta segura, a pergunta de Patsy ecoou em Marius e ele dispôs-se a colocar a sua crença de lado – entre parêntesis – e a ouvir a voz de Patsy.

Patsy e Romme organizaram então uma série de entrevistas entre ela e outras pessoas internadas no hospital que também ouviam vozes. Marius, que assistia às entrevistas, ficou impressionado com o diálogo e entendimento que partilhavam e que ultrapassava em muito aquele que ele tinha sido capaz de alcançar enquanto interlocutor. Nas palavras do próprio, frente às conversações entre ouvidoras/es, ele, o “especialista”, tornou-se o que não entendia.

Mas isto não chegava. Patsy queria conhecer pessoas que tivessem experiências semelhantes, mas que não estivessem no hospital nem precisassem de apoio profissional, pessoas para quem as vozes não fossem um problema. Para isso, com a ajuda da jornalista e companheira de Romme Sandra Escher, apresentaram-se num programa de televisão e lançaram o apelo para que pessoas que ouviam vozes e não tinham dificuldades em lidar com elas contactassem o programa. As respostas chegaram às centenas. Enquanto que uma parte das respostas vinha de pessoas que não conseguiam lidar com as vozes, outras diziam ter encontrado formas de as controlar. Foi-lhes, então, enviado um questionário que procurava identificar as diferenças entre estes dois grupos e que estratégias eram utilizadas pelas pessoas que diziam conseguir lidar com as vozes. Desses contactos surgiu um primeiro Congresso – com as pessoas que ouviam vozes e encontraram formas de lidar com elas como oradoras – e o primeiro Grupo Ouvir Vozes.

No ano seguinte, em 1988, quando Patsy, Marius e Sandra ainda estavam a tentar compreender as implicações de tudo isto, cruzaram-se em Trieste – um lugar particularmente simbólico no âmbito da saúde mental – com Paul Baker, um educador social e activista já reconhecido em Manchester (Inglaterra) pelo seu envolvimento na área da saúde mental. Com o seu próprio irmão a passar por um período de crise, diagnosticado como psicótico e internado, sabendo-se crítico ao tratamento recebido pelo irmão, mas sem conhecer alternativas, Baker rapidamente percebeu o alcance daquilo que o trio holandês propunha e no mesmo ano começou o primeiro Grupo Ouvir Vozes em Inglaterra, onde actualmente existem mais de 180 grupos, em serviços de saúde mental, em estruturas comunitárias e até em prisões. Os seus anos de activismo e advocacy abriram o Movimento a uma dimensão de luta social e reivindicação de direitos.

Princípios do Movimento

O Movimento Internacional Ouvir Vozes é um movimento por direitos humanos e justiça social focado nas experiências e perspectivas de quem ouve, vê, sente ou crê coisas que outras pessoas não enquanto especialistas por experiência nesse fenómeno. Promove a desestigmatização da experiência de ouvir vozes, a valorização do conhecimento que resulta dessa vivência e o apoio mútuo entre ouvidoras/es.

Para que um grupo ou iniciativa se considere como parte do Movimento Ouvir Vozes, tem apenas de seguir 3 princípios:

  • Ouvir vozes, ver visões ou outros fenómenos, são experiências significativas que podem ser compreendidas de múltiplas formas.
  • Ouvir vozes não é, em si, uma indicação de doença. Mas a dificuldade em lidar com as vozes pode causar um grande sofrimento.
  • Quando as pessoas se sentem assoberbadas pelas experiências, o apoio oferecido deve ser baseado no respeito, empatia, escolhas informadas e na compreensão do sentido das vozes na vida da pessoa.

A colaboração, iniciada nos anos 80, entre ouvidoras/es, profissionais, familiares, etc, inspirou um movimento social internacional em que especialistas por experiência (ouvidoras/es de vozes, familiares…) têm trabalhado em parceria com especialistas por profissão (académicas/os, clínicas/os, activistas…) para questionar, criticar e reformular as concepções biomédicas tradicionais sobre a audição de vozes; para desenvolver abordagens que ajudem as pessoas a lidar com a experiência; para redefinir a propriedade do poder sobre a experiência, e para promover a defesa dos direitos daqueles que ouvem vozes.

Apesar da ligação bem estabelecida entre ouvir vozes e experiências de vida traumáticas, o Movimento aceita explicitamente todas as explicações para a origem das vozes e encoraja as pessoas a explorarem as suas próprias crenças, sejam elas espirituais, religiosas, paranormais, tecnológicas, culturais, contra-culturais, filosóficas, médicas, etc. O Movimento acolhe também pessoas com uma variedade de experiências, incluindo pessoas que têm visões ou outras percepções, sensações ou crenças incomuns.

Quando Romme se dispôs a ouvir Patsy Hage, era de falar com outras pessoas com experiências semelhantes que ela tinha vontade. Quantas pessoas passam anos em alas psiquiátricas ou instituições, rodeadas de outras pessoas que ouvem vozes, pensando ser as únicas pessoas que vivem com elas? Quão profundamente isolador (e desolador) é isso? A base do Movimento continua, por isso, a ser a roda de conversa, o quebrar do silêncio, o vermo-nos no outro, no que dói, mas também no que alimenta a esperança. Rachel Waddingham descreve assim a sua primeira participação num grupo:

“fiquei chocada por todas aquelas pessoas serem também ouvidoras de vozes. Todas pareciam tão normais (bom, tão normais como qualquer uma de nós é). O meu primeiro pensamento foi que elas eram todas profissionais de saúde mental e que eu era a única pessoa “doida” ali. Quando o grupo começou, rapidamente percebi que aquelas pessoas não só eram ouvidoras de vozes – mas que tinham experiências com que me podia identificar.”

Os Grupos Ouvir Vozes, à semelhança de tantos outros grupos de pares, são espaços seguros para partilhar experiências tabu onde existe real oportunidade de desenvolvimento e recovery – o Movimento foi inclusive identificado como exemplo de boas práticas pela OMS. As pessoas são livres de partilhar e explorar as suas experiências – incluindo o conteúdo do que as suas vozes dizem – sem a ameaça de censura, perda de liberdade ou medicação forçada, uma caraterística demasiado comum nos contextos tradicionais.

Não prometemos que as vozes desaparecem, não podemos prevê-lo; mas afirmamos que sim é possível aprender a viver com elas e até a construir relações positivas com elas. O Movimento encoraja e apoia as pessoas a prestarem atenção ao pormenor e ao conteúdo das suas vozes, visões, experiências sensoriais ou estados alterados: existe um interesse genuíno pelo leque de experiências interiores e subjectivas das pessoas; quando se descrevem fenómenos considerados “psicóticos”, o foco está no significado dessa loucura. Por vezes, as pessoas usam uma linguagem metafórica ou simbólica para transmitir a sua realidade e outras estão literalmente a falar de coisas que lhes aconteceram. Por muito perturbada que alguém pareça, o Movimento assume que é uma tentativa significativa de sobreviver a experiências enlouquecedoras. Ao contrário da relação tradicional de “eles vs. nós” – profissional dominante e especialista e paciente passivo e receptor – o Movimento baseia-se em relações de respeito mútuo, em parcerias autênticas entre especialistas por experiência e especialistas por profissão, que trabalham em conjunto para conseguir a emancipação das/os ouvidoras/es de vozes. Esta mudança das hierarquias e estruturas de poder tradicionais, cria uma série de novas possibilidades e o potencial para laços partilhados entre todas as pessoas envolvidas. Nas palavras de Jacqui Dillon e Gail Hornstein, num artigo publicado na revista Psychosis no qual muito se baseiam os parágrafos anteriores,

porque não há julgamento, nenhuma mensagem dissimulada de que as vozes são patológicas, as pessoas sentem – muitas vezes, pela primeira vez nas suas vidas – que podem revelar o que está a acontecer dentro delas.

O Movimento Ouvir Vozes em Portugal

A formação em Psiquiatria mudou muito nas últimas décadas. Algo talvez relevante sobre Marius Romme é que a sua formação se orientava para a Psiquiatria Comunitária. Nos anos 80, a Universidade de Maastricht (Holanda) era um centro de referência nesta área e deu-se o feliz acaso de, enquanto Romme, Escher e outros que se lhe juntaram investiam na investigação sobre este (para eles) recém descoberto fenómeno de vozes que importam, estar lá um estudante de Psiquiatria português que se interessou pela proposta e inclusive traduziu o primeiro livro por eles publicado, Na Companhia das Vozes (Romme et al., 1997).

Quase 20 anos depois, Coimbra recebeu um estudante da Eslovénia que já era lá facilitador de um Grupo Ouvir Vozes. Do seu interesse e experiência, formou-se um grupo que começou a organizar eventos na cidade sobre o fenómeno. Um destes eventos, a projeção do filme dinamarquês As Vozes de Mette, foi particularmente poderoso. O documentário acompanha quatro anos da vida de Mette, uma enfermeira diagnosticada há 15 anos com esquizofrenia paranóide. Encontrámo-la primeiro numa residência para pessoas com diagnósticos, altamente medicada, e acompanhámo-la nesses anos, primeiro na viagem a um Congresso Internacional do Movimento Ouvir Vozes, depois em momentos tão íntimos quanto as suas consultas de psicoterapia e, então, lentamente, na reconstrução da sua vida, deixando a medicação e até a residência. A sala foi pequena para tantas pessoas que se juntaram, por isso, no final, movemo-nos para o jardim onde, ao estilo do Movimento, nos sentamos em roda e abrimos espaço para conversa. Várias pessoas partilharam espontaneamente o seu testemunho, tanto pessoas com diagnóstico como familiares, testemunhos marcados por um sentimento de desamparo, de falta de respostas do sistema de saúde, de falta de caminhos, de desesperança (sem a força do desespero). No final, lançamos o convite à criação de um Grupo Ouvir Vozes que se começou a reunir de forma regular em vários locais, consoante a disponibilidade. Por ser um grupo aberto a todas as pessoas que tivessem interesse em juntar-se chamamos-lhe As Nossas Vozes. Estes encontros aconteceram entre Setembro de 2016 e Janeiro de 2017, mas a participação de pessoas com experiência foi progressivamente diminuindo. Na altura, reflectindo sobre isso, pensamos que o facto destas terem sido sempre uma minoria no grupo fez talvez com que o espaço fosse perdendo o seu papel e, portanto, sentido para elas. Entretanto, com o núcleo mais activo a deixar a cidade e até o país, ficaram os contactos, mas os encontros pararam.

Imagem de divulgação (2016)

No entanto, mesmo sem actividade, às redes sociais continuavam a chegar pedidos de apoio. Por isso, no final de 2019, retomamos as redes sociais, focadas na tradução e produção de materiais. A pandemia em 2020, tendo encerrado muita coisa, também abriu possibilidades; de repente, um pouco por todo o mundo, os Grupos Ouvir Vozes passaram a acontecer online, o que abriu espaço para considerarmos a possibilidade de começar um Grupo Ouvir Vozes, ainda que à distância. Mas, ainda que outros estivessem a mudar um grupo já existente, nós estávamos a começar um grupo do zero, sem qualquer ligação a organizações de saúde.

O Grupo de Ouvidoras/es

Aproveitando o grupo de facebook associado à página, fomos lançando convites ao encontro. As pessoas foram surgindo, aproximando-se, conhecendo-se. Devagar, devagarinho, os encontros passaram de ter uma ou outra pessoa a ter caras recorrentes, pessoas com nomes e histórias que se (re)conheciam. Os encontros passaram, por decisão do grupo, a quinzenais e criou-se um grupo whatsapp onde se mantém o contacto durante a semana, às vezes com stickers, às vezes com receitas, às vezes com dores.

Hoje, as pessoas que participam estão dispersas por todo o país, com a larga maioria a viver fora dos grandes centros urbanos. Algumas têm diagnósticos (esquizofrenia, psicose, doença bipolar…), outras não. Algumas tomam medicação, outras estão em processo de redução, outras nunca tomaram. Algumas ouvem vozes, outras têm experiências que não encaixam nessa descrição. Nas espontâneas palavras de um membro, todas/os têm experiências extraordinárias. As pessoas que participam estão também em lugares diferentes na sua relação com as vozes ou com o diagnóstico; enquanto que algumas estão a viver momentos muito difíceis e a tentar evitar um novo internamento, outras têm vidas perfeitamente ordinárias, e a maioria está algures neste espectro.

O que quase todas têm em comum – e que é um tema recorrente nos encontros – são experiências bastante negativas na relação com os serviços de saúde mental: os internamentos compulsivos, a falta de explicações ou até de oportunidades de diálogo com os profissionais prescritores (sendo a medicação o único “tratamento” oferecido), as garantias que estão na lei, mas que são recorrentemente contornadas sem que haja a quem apelar por isso… estes são temas recorrentes, com cada encontro a permitir às pessoas partilhar um bocadinho mais de uma história repleta de situações traumáticas (nos serviços) e da vergonha interiorizada nesse processo. As vozes e demais experiências são tema de conversa principalmente quando alguém está com dificuldade em lidar com elas, ou como questionamento sobre a patologização das experiências – e aí, surgem, muitas vezes pela primeira vez, as experiências positivas ou neutras. De facto, o grupo enquanto espaço relacional, abre espaço a muito mais do que uma mera troca de estratégias – ainda que isso também seja importante e esteja presente. O grupo traz um lugar de aceitação a pessoas que, frequentemente, se sentem profundamente rejeitadas; traz um lugar de ser pessoa a quem há muito já só se conhece paciente (ou problemática/o ou difícil ou…); traz um lugar onde há espaço para mim e onde eu sou incentivada/o a fazer espaço para a/o outra/o e onde, porque isso tem sentido, paradoxalmente, eu aprendo a reduzir o espaço da minha realidade interna para fazer espaço à realidade partilhada, no aqui e agora.

Como disse, numa conversa, a Joana:

“Vocês já repararam como é fantástico estarmos todos a tentar apoiarmo-nos na medida que podemos?“

GAFA – Grupo de Apoio de Familiares e Amigas/os

Uma parte significativa das pessoas que entram em contacto connosco através das redes sociais não é ouvidora de vozes. São, na sua maioria, profissionais com vontade de saber mais sobre o Movimento ou familiares à procura de orientação. Frequentemente, o contacto surge num momento de crise. A resposta inicial é quase sempre a mesma: a experiência de ouvir vozes, apesar de altamente estigmatizada, é muito mais comum do que se crê; muitas pessoas, inclusive famosas, ouvem vozes ou ouviram em algum momento da sua vida; a experiência não é por si uma sentença para a vida; ainda que a pessoa esteja a ter dificuldade em lidar com as vozes, ainda que as vozes sejam molestas, é possível aprender a geri-las e até que elas desapareçam com o tempo.

A primeira reacção a receber um diagnóstico de esquizofrenia de um ente querido é, frequentemente, choque e a sensação de não estar preparada/o para compreender a condição ou suas necessidades. Ao estigma socialmente associado às experiências e ao diagnóstico, soma-se a sentença: crónico. Além do peso da notícia, têm ainda pela frente o labirinto do sistema social e de saúde e, frequentemente, o confronto com um manejar com que se sentem em profunda discordância. É deste lugar de desamparo e incredulidade que nos chegam familiares.

Conscientes desta necessidade, mas sem uma resposta específica estruturada para estas pessoas, decidimos convidar os familiares que haviam entrado em contacto connosco e abrir um espaço de conversa com a equipa para, em conjunto, pensarmos no que poderia ser feito. Dessa conversa nasceu o Grupo de Apoio de Familiares e Amigos.

A facilitação do espaço foi então assumida por duas pessoas com experiência de ver, ouvir ou sentir coisas que outras pessoas não. Experiências diferentes, com impactos muito diferentes, mas que ilustram precisamente a diversidade de caminhos que estas experiências podem tomar – por oposição à sentença à cronicidade. De facto, creio que esse é um ponto chave do impacto deste grupo: no extremo oposto à mensagem de “fim de linha” que as pessoas frequentemente sentem receber dos profissionais, aqui são recebidas por pessoas que são o exemplo vivo de que estas experiências podem ser uma forma transitória de lidar com o stress e de que, mesmo quando a sua presença se alarga no tempo e no impacto que tem na vida da pessoa, a recuperação é possível.

Nas palavras da Raquel, uma das facilitadoras:

“Assim se construiu mais uma família no movimento, com duas facilitadoras empáticas e disponíveis, as reuniões começaram a desenrolar-se com uma periodicidade mensal. Tal como o grupo de pares, este grupo não obedece a uma estrutura prévia, as reuniões fluem dos temas que o grupo escolhe discutir num dado dia. As grandes características deste espaço são o ambiente de intimidade e partilha que se conseguiu construir com os participantes. Em conjunto exploram-se significados internos, reflete-se sobre a sociedade e de que forma as nossas próprias percepções são moldadas por estas normas. Ao mesmo tempo partilha-se o que de mais íntimo existe e reflete-se sobre o que se passa fora de nós. De que é a vida feita mais além da soma das nossas partilhas e momentos? No GAFA existem espaço e familiaridade suficiente para abarcar até os temas mais difíceis com que a família e amigos se confrontam.“

Parte da equipa com Dainius Pūras, num Congresso em 2025.

Vozes críticas

A acusação mais frequente que o Movimento (internacional) recebe é a de diminuir ou ignorar a dureza das experiências de ouvir vozes e o seu impacto destruidor na vida da pessoa. É possível que o discurso externo do Movimento seja chocantemente “positivo” para quem trabalha nos serviços de primeira linha, que recebem as pessoas nos seus momentos mais extremos e mais frágeis. No entanto, o optimismo do Movimento não é vazio, antes está profundamente enraizado nas mudanças e evoluções que testemunhamos em tantas pessoas. Não é por acaso que a Intervoice – a organização-chapéu do Movimento Internacional – tem sido liderada por pessoas com experiências de ver, ouvir ou sentir coisas que outras pessoas não com histórias dramáticas, de profundo sofrimento, antes e depois, dentro e fora dos serviços; não é tampouco, por acaso, que tantas das pessoas que agora dão formação, não só sobre o Movimento ou a Entrevista de Maastricht, mas sobre patologização, trauma, abordagens baseadas em direitos, etc, sejam igualmente pessoas com experiências e histórias de inacreditável dureza que, sim, recuperaram. Talvez seja difícil olhar para elas agora – penso, p.e. na Eleanor Longden, na Rachel Waddingham, no Peter Bullimore ou na Jacqui Dillon, mas também já em alguns nomes portugueses – e rever nelas as pessoas que chegam às urgências, profundamente desconectadas, possivelmente agressivas, definitivamente em sofrimento; mas todas estas pessoas também passaram por ali, também passaram por aqueles momentos de desconexão, sofrimento e até agressividade. A recuperação é, não só possível, como provável.

No entanto, talvez possamos colocar-nos de acordo que o Movimento Ouvir Vozes, por si, não é a solução. Criar Grupos Ouvir Vozes em todos os serviços não vai dissolver todas as questões à volta do sofrimento psíquico ou sequer com os serviços de saúde. Mas o Movimento Ouvir Vozes também não existe sozinho. O Movimento é parte de um universo maior de organizações, movimentos, utentes, sobreviventes, profissionais, investigadoras/es, etc que têm não só apontado a insustentabilidade deste modelo de “tratamento”, como proposto e criado alternativas de cuidado. São disso exemplo também as Casas Soteria, o Diálogo Aberto ou os Recovery Colleges. O que o Movimento Ouvir Vozes pretende sim, é contribuir para um questionamento do modelo como o conhecemos, único e universal; como se toda a gente precisasse do mesmo, como se toda a gente precisasse das mesmas respostas, como se todas as perguntas tivessem uma simples e única resposta. O que o Movimento defende é que quando as pessoas se sentem assoberbadas pelas suas experiências (sejam estas de realidades diferentes ou não), o apoio oferecido deve ser baseado no respeito, empatia, escolhas informadas e na compreensão do sentido da experiência na vida da pessoa. Ora isto não se coaduna com um sistema que tem uma única resposta a todas as questões, que tem apenas um caminho a oferecer (ou ao qual forçar) a quem o procura. Não é de admirar que muitas pessoas que nos chegam venham à procura de apoio para questionar medidas e práticas do sistema tradicional; porque, de alguma forma, notam na nossa comunicação uma abordagem diferente, que lhes faz mais eco, esperam (de esperança) encontrar uma estrutura montada com aquilo que parece impossível não existir: um organismo, uma associação que possa reforçar a sua voz frente ao absurdo do que viveram. Tal como não existe apenas uma resposta à pergunta “porque as pessoas ouvem vozes?”, tampouco pode haver um único caminho para lidar com estas experiências. Por isso, a proposta não é a de competir com outras respostas, mas sim a de advogar pela necessidade de uma pluralidade de espaços, caminhos e sentidos a que a pessoa com experiências possa recorrer para que, suportada por essa rede, seja realmente livre para encontrar o seu próprio caminho, a sua própria voz.

Nas palavras de Eleanor Longden.

Juntas/os, imaginamos e criamos uma sociedade que entende e respeita a experiência de ouvir vozes, apoia as necessidades de quem ouve vozes e valoriza-as como cidadãs/ãos completas/os.”

Uma história de quem conta a história

Outra pessoa contaria esta história de forma diferente, definiria até o Movimento de outra forma. Esta é a minha.

Cruzei-me com o Movimento em Barcelona, para onde fui à procura de respostas para a inquietação que me ocupava desde que, no ano antes de começar a estudar Psicologia, comecei a fazer voluntariado num hospital psiquiátrico. Entrar naquele espaço como voluntária permitiu-me algo que, além dos residentes, mais ninguém ali tinha: tempo. Tempo para conversar, tempo para ouvir, tempo para esperar. Foi assim que aprendi a conectar os pontos, a ver sentido nos comportamentos ou pensamentos “bizarros” e, quando não via, a manter a curiosidade acesa. E foi assim que surgiu a inquietação: não pode ser só isto. Não podem ser só as 4 paredes de um hospital psiquiátrico, com os seus horários e ementas, o que há a oferecer a pessoas que carregam estas histórias. E não é.

Em Barcelona acompanhei a Rede de Apoio Mútuo para Pessoas Psiquiatrizadas; foi nos seus grupos de estudos – não na faculdade – que descobri Foucault, Laing, Basaglia e Tosquelles, os documentários do Daniel Mackler, o Icarus Project, Joanna Moncrieff, John Read… um universo de muito mais que quatro paredes. Por absoluto acaso, o Congresso Mundial do Movimento Internacional Ouvir Vozes aconteceu em Madrid, nesse ano, e quando percebi que pessoas do grupo iriam participar, saltei à possibilidade de me juntar. O que vivi naqueles dias não é fácil de explicar, certamente impossível de transmitir. Nunca tinha estado num congresso que não fosse apenas de profissionais, muito menos imaginaria um onde pessoas com experiências ocupavam o palco, não só para contar as suas histórias, mas principalmente o que aprenderam com elas. Muitas das comunicações que ouvi naqueles dias de 2015 continuam presentes em mim, mas ecoa principalmente o estilhaçar da hierarquia entre o conhecimento profissional e o conhecimento por experiência vivida. Almejado, claro, num processo de desconstrução a que a facilitação do Grupo de Ouvidorxs e a relação com a equipa que faz acontecer o Movimento em Portugal me vão dia-a-dia ajudando.

De facto, este texto, esta forma de contar a história, assino eu, mas não existiria sem as pessoas que passaram pelos encontros, sem as pessoas que fazem ou foram fazendo parte da equipa, sem a insistência da Raquel em pôr-me a escrever, sem as revisões do Eduardo e sem o contributo de um sem-fim de pessoas que, passando ou ficando, me alimentam a inquietação sem me deixar ser tomada por ela. Nas palavras de Kropotkin, autor do livro “Ajuda Mútua: um factor de evolução” que serviu de referência bibliográfica para as muitas aprendizagens práticas vividas naquele grupo em Barcelona, “Cada descoberta, cada progresso, cada aumento da riqueza da humanidade, tem o seu princípio no conjunto do trabalho manual e intelectual do passado e do presente. Logo, com que direito poderia alguém apossar-se da menor parcela desse imenso património e dizer: Isto é meu, não é vosso?“. Foi por uma série de acasos que cheguei ao Movimento Ouvir Vozes, não foi por acaso que fiquei. Seguimos.

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Se gostavas de saber mais sobre o Movimento Ouvir Vozes em Portugal, junta-te à nossa Conversa Aberta no próximo dia 8 de Setembro, online. É a altura perfeita para conheceres a equipa e pensarmos juntas/os o que se segue. És bem-vindx.

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