Tocar o invisível

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Por vezes há experiências que nos tocam profundamente, mas não sabemos exatamente como nem quanto. Assim foi o meu primeiro internamento psiquiátrico.

De um momento para o outro, passei de ser uma pessoa funcional e integrada na sociedade para ser uma doente mental sem direitos. Durante três semanas pedi para falar com um psiquiatra, na esperança de que aqueles profissionais me pudessem ajudar. Mas não houve ninguém.

Foto de Cherry Laithang na Unsplash

Essa ausência era parte de um sofrimento com várias camadas: estar fechada no hospital, de pijama todo o dia, rodeada por pessoas que também atravessavam estados mentais muito difíceis; lidar com os efeitos secundários da medicação psiquiátrica; e sentir-me abandonada num contexto onde deveria encontrar apoio.

Após essa experiência, senti algo dentro de mim fechar-se ao mundo. Uma parte de mim deixou de confiar nas pessoas e nos tratamentos. Fui sobrevivendo com essa ferida ao longo de muitos anos — serão vinte em 2027.

O segundo internamento foi mais fácil, porque eu já sabia o que esperar. Acabamos por nos habituar a quase tudo. Mas isso não significa que o que aconteceu estivesse correto.

As pessoas com doença mental não deixam de estar presentes na sua própria mente por terem sintomas psiquiátricos. Continuam a sofrer, a sentir, a pensar e a precisar de contacto humano. Todos merecemos compaixão. Todos necessitamos de que o nosso sofrimento seja reconhecido. No entanto, muitas vezes não é isso que acontece. A partir do momento em que existe um diagnóstico, a pessoa passa a ser vista como diferente. Por vezes, até como inferior. Direitos podem ser retirados sem grande questionamento, porque a doença parece justificar tudo.

Precisamos de deixar de tratar a doença mental como um tabu. Precisamos de falar abertamente sobre estas experiências, porque também são vivências humanas. E não há sofrimento maior do que o estigma que acabamos por interiorizar.

Sentimo-nos diferentes, isolados, assustados. Muitas vezes vivemos tudo isto em silêncio. Aprendemos, através do contacto com os serviços, que existem certas coisas de que não se fala. Toma-se um comprimido e espera-se que passe. Mas e quando não passa? Ou quando demora muito tempo a passar? Estará a pessoa permanentemente presa naquele estado? O que significa tudo aquilo que está a viver?

Felizmente, no meu caso, as crises foram esporádicas, embora nem por isso menos difíceis. Nos períodos de estabilidade consegui refletir sobre o que vivi e compreender emoções complexas que muitas pessoas carregam em silêncio.

Recentemente participei num debate com médicos e psiquiatras sobre a minha experiência nos serviços de saúde mental. Não foi fácil. Não foi agradável apontar falhas ou reabrir feridas que ainda existem. Mas apercebi-me de algo importante: eu tinha interiorizado o silêncio. O silêncio de quem aprendeu que não devia falar sobre o que lhe aconteceu. O silêncio de quem vê o psiquiatra como uma figura de autoridade e, quando sente os seus direitos ameaçados, desenvolve um medo profundo de questionar. Um medo que nasce da necessidade de sobreviver.

O desconforto que senti ao partilhar a minha experiência vinha dessa aprendizagem profunda feita durante o primeiro internamento. E isso levou-me a uma pergunta: será para isto que existem os serviços de saúde mental? Terão plena consciência do impacto psicológico que as suas práticas podem ter nas pessoas que tratam?

Compreendo a falta de recursos. Compreendo a dificuldade de trabalhar diariamente com pessoas em sofrimento psíquico intenso. Mas não podemos ignorar os efeitos destas experiências na identidade, na autoestima e na confiança das pessoas.

Durante o debate, disse algo que continua a parecer-me verdadeiro: nunca ninguém me disse diretamente que eu não era capaz. Mas eu recebi essa mensagem. Recebi-a quando me fizeram passar dias inteiros de pijama, sem atividades significativas, sem projetos, sem vida. Apenas medicação e sintomas. Foi traumatizante porque senti que, a partir daquele momento, já não merecia mais do que aquilo. Como se a sociedade não esperasse mais nada de mim. Como se os meus sintomas fossem motivo de vergonha e eu tivesse perdido o direito a uma vida plena. Nunca ninguém me pediu desculpa por eu ter esperado três semanas para falar com um médico. Nunca ninguém me explicou porque é que o internamento pode ser tão desestruturante para uma pessoa. Nunca ninguém me ensinou a lidar com os meus sintomas ou com as consequências emocionais daquela experiência. Essas reflexões tive de as fazer sozinha. E deixaram marcas profundas.

Sei também que a minha experiência está longe de ser a mais difícil. Ao longo dos últimos anos conheci pessoas com histórias muito mais marcantes do que a minha. Foi por isso que decidi contribuir para que estas realidades viessem à superfície e passassem a fazer parte da conversa pública. As pessoas com doença mental merecem respeito pela sua condição humana. Por baixo de cada sintoma psiquiátrico há uma pessoa que sofre. Uma pessoa que recebe as mensagens, explícitas ou implícitas, de abandono, desvalorização e inferiorização.

Faço esta reflexão sem revolta e sem agressividade. Faço-a com a esperança de que os profissionais possam refletir sobre as suas práticas e sobre o impacto que elas têm nas vidas daqueles que procuram ajudar. Felizmente, hoje estou recuperada e espero nunca mais precisar de ser internada. Mas existem muitas outras pessoas que passam por experiências semelhantes e que continuam a carregar estas feridas. Todos precisamos de compaixão. Mas quem atravessa uma crise de saúde mental precisa ainda mais de gestos de humanidade, respeito e presença. Cada pequeno gesto de bondade pode ser um bálsamo para feridas que permanecem durante anos.

Espero que os serviços de saúde mental continuem a evoluir e a transformar-se em espaços verdadeiramente promotores de recuperação, dignidade e esperança — e não apenas em locais de contenção, onde a pessoa corre o risco de ser diminuída a vários níveis e reduzida aos seus sintomas.

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Raquel Carvalho
É ativista, autora, palestrante e formadora na área da saúde mental, baseando o seu trabalho na sua experiência vivida enquanto pessoa com percurso no sistema nacional de saúde mental e com experiências de realidade não consensual, incluindo ouvir vozes. Ao longo de quase duas décadas, atravessou diferentes processos de sofrimento psíquico, internamentos e diagnósticos, percurso que veio a transformar numa base de reflexão crítica, partilha pública e intervenção formativa. É autora de Psicose e a Arte de Viver, onde explora caminhos de sentido, recuperação e convivência com a psicose a partir de uma perspetiva na primeira pessoa. Tem participado como oradora e formadora em iniciativas académicas e comunitárias, contribuindo para o debate sobre saúde mental, estigma e direitos humanos. Integra o Movimento Ouvir Vozes – Portugal, onde é facilitadora do Grupo de Apoio de Familiares e Amigas/os, promovendo espaços de apoio mútuo e diálogo em torno das experiências de ouvir vozes e outras realidades não consensuais. Foi também formadora no curso para Agentes de Suporte Interpares, reforçando o seu compromisso com práticas centradas na experiência vivida e na entreajuda. É licenciada em Psicologia pela Universidade do Porto.

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