Gente que se esgota

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Tenho corrido médicos sem fim para conseguir fazer frente ao meu estado de saúde. Sei o que se passa e o que me está a acontecer. A minha luta pela dignificação dos direitos dos cuidadores informais é absolutamente egoista. A maior parte das lutas começam no abandono. E eu, que fui abandonada ainda sem ter entrado na idade adulta, fui trilhando os caminhos impossíveis de burocratas, dos lobbys, da cegueira institucional.

Somos milhões que cuidam de quem é considerado improdutivo. O ciclo fecha-se quando nos descartam por estarmos doentes e exaustos… ou seja, impossíveis de apertar para sair mais uma gota de sangue para o sistema capitalista. Somos milhares. Somos milhões. Não acontece apenas no nosso país; é uma doença social mundial.

Somos gente que se esgota e se perde nos meandros do desespero.

Foto de Annie Spratt na Unsplash

Sou portadora de uma patologia intestinal crónica que tem piorado com a idade; com as mudanças inerentes à minha condição de mulher.

São duas premissas que me impedem, à priori, de ser olhada como indivíduo.

Sou um número… somos milhões de números.

Sustentamos a saúde pública;

Sustentamos a permanência de outros no mercado de trabalho;

Sustentamos milhões de vidas que não foram interrompidas simplesmente por estarmos presentes.

Somos prisioneiros da pressa, da produtividade, da sede em que se transformou o percurso de cada vida.

Não sou mais. Não sou menos.

Não sou uma vítima: sou uma criatura albarroada pelos tempos!

Quando vi os pinheiros mansos a serem cortados em plena época de nidificação, na frente da minha casa tive uma epifania.

Ali viviam rolas, esquilos vermelhos, cucos, pica paus…

Uma panóplia de seres que são, pelos humanos, considerados protegidos.

Vi e ouvi o desespero dos animais e o riso dos homens que lhes destruíam a vida. Os bichos mortos; os raros e os mundanos.

Chorei abraçada a mim! Porque senti nos ossos a realidade: sejamos ou não raros, se estivermos no caminho do lucro seremos abatidos, cortados, decepados.

Conheço centenas de Cuidadoras informais. Todas doentes. Cada vez mais doentes.

As que cuidaram dos maridos, vindos da guerra colonial estão com demência (apontaria para um número superior a 80%);

As filhas cuidadoras informais comunicam cansaço extremo, alterações hormonais, cancros e demência precoce;

As mães… as mães repetem o padrão… sendo que as que fui conhecendo não podem aceitar tratamentos porque… o que se faz a um filho que precisa de nós para viver?

Isto não está a acontecer-nos! Vai acontecer-vos!

Sem um sistema social público digno, caminhamos todos para este descalabro.

Fazemo-lo com o ambiente;

Fazemo-lo com pessoas.

Não se acanhem nem tenham medo de impor a Vossa dor! Ela vale mais que os bolsos de quem vos esmifra.

Continuarei a procurar soluções. Para mim e para os meus.

Mas vou deixando nota de quem culpo. De quem são os carrascos do amor e do direito à individualidade.

Serei inteira até partida.

E, se um dia puder, serei a última visão de um deles.

Porque o ódio combate-se com amor.

Mas isto… isto que nos fazem combate-se com lâminas!

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