Quando a Psicologia se torna conteúdo, por Sara Rathenau

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Numa crónica publicada na Comunidade Cultura e Arte, a psicóloga clínica e investigadora Sara Rathenau fala sobre a popularização da psicologia e da saúde mental sublinhando a diferença entre disponibilidade de informação e conhecimento e apontando os riscos de uma comunicação que, para ter alcance nas redes sociais, sacrifica complexidade e rigor.

“É precisamente nesta fronteira que a psicologia pop se torna particularmente sedutora. Tornar o conhecimento mais acessível é um objectivo desejável, torná-lo simplista é um risco. Comunicar ciência implica traduzir conceitos complexos para uma linguagem compreensível, sem comprometer o rigor, o contexto ou a incerteza que fazem parte do próprio conhecimento científico. No entanto, a lógica das redes sociais favorece conteúdos curtos, categóricos e emocionalmente impactantes, características que nem sempre são compatíveis com a complexidade inerente à investigação científica.“

Foto de George Pagan III na Unsplash

Explorando este constante (des?)equilíbrio entre a importância do acesso à informação e o perigo do formato simplificado que as redes sociais exigem, a autora reflecte também sobre a desvalorização da própria disciplina, como se “respostas rápidas, simples e universais” pudessem abarcar a complexidade já não só da investigação científica que a suporta, mas da própria pessoa atendida.

“Para captar atenção, é frequente recorrerem a generalizações, apresentarem comportamentos comuns como sinais de psicopatologia ou sugerirem diagnósticos sem qualquer avaliação clínica. Assim, instala-se uma cultura do diagnóstico, em que experiências humanas expectáveis passam a ser interpretadas através de categorias clínicas. Nem toda a tristeza é depressão, nem todo o conflito é trauma, nem todo o comportamento difícil reflecte um traço narcísico.“

Numa referência ao trabalho de Foulkes e Andrews, a autora alerta que “a crescente popularização da linguagem da saúde mental pode favorecer a patologização de experiências comuns e incentivar o auto-diagnóstico“. Este fenómeno é ainda alimentado e retro-alimentado pelo documentado investimento da indústria farmacêutica em influencers pagos para publicitar os seus produtos, sejam profissionais de saúde, sejam os chamados “patient influencers” numa questionável dança mediada pelo algortimo e, consequentemente, não por saúde e cuidado, mas por dinheiro.

Se por um lado, o acesso à informação é um passo fundamental no desenvolvimento de literacia em saúde – fundamental para que as pessoas tenham uma maior agência em relação a si próprias, inclusive no contacto com profissionais -, a forma como a informação é divulgada, numa adaptação às exigências das plataformas, nem sempre permite que a existência de informação disponível seja, de facto, um contributo para o desenvolvimento de conhecimento.

“Há uma ilusão própria do nosso tempo: a de que, como a informação está disponível para todos, o conhecimento também o está. Nunca foi tão fácil aprender sobre Psicologia. Mas importa não confundir disponibilidade com conhecimento. O facto de uma informação estar acessível não significa que tenha sido compreendida, contextualizada ou integrada de forma crítica.“

Esta crónica é, por isso, um importante convite à reflexão numa altura em que, continuando a aumentar a liberalização da profissão, cada profissional se vê empurrada/o a lutar por visibilidade nas plataformas. “Aproximar a Psicologia das pessoas é importante. Mas só faz sentido se, nesse caminho, ela não deixar de ser Psicologia.”

*Referências bibliográficas no link original.

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