Violência Familiar, o testemunho de Fabian Figueiredo

0
255

Fabian Figueiredo, deputado na Assembleia da República pelo Bloco de Esquerda, publicou no Expresso um poderoso testemunho pessoal sobre violência familiar. Num ensaio que visita as histórias, mas também as marcas que ficaram muito além da infância, o autor sublinha que “a minha história não tem nada de excecional. É tão banal quanto as estatísticas anuais que lemos de passagem e esquecemos antes do café seguinte. Todos os anos, os números repetem-se com a monotonia das coisas que decidimos não ver. Milhares de crianças em Portugal crescem em contextos de violência familiar. A minha história é uma dessas linhas da tabela. E é precisamente aí que está o facto central: não na exceção, mas na norma. Na violência da normalidade.”

É agora aos 40 anos, “a idade a que muitos de nós chegamos quando finalmente deixamos de conseguir não olhar“, que articula partes desta história e as partilha publicamente, num corajoso acto de vulnerabilidade, tantas vezes ausente no espaço mediático, principalmente, quando no masculino.

Foto de David Clode na Unsplash

Fabian fala não apenas da violência explícita, mas também dos “gritos e recriminações absolutamente desproporcionais, ou o seu contrário, o silêncio imposto como castigo, que doía de outra maneira e durava mais“. Apesar destas formas de violência serem ainda mais normalizadas, as suas consequências são muito reais: “Aprendi cedo a ler o ar de uma divisão antes de entrar nela. As crianças que crescem assim tornam-se sismógrafos: medem a pressão dos passos no corredor, o tom de uma chave na fechadura, a qualidade de um silêncio.” e acrescenta “Não é talento. É sobrevivência.“

Neste ensaio partilha não só aspectos dessa que foi a realidade da sua família – e de tantas outras -, mas enumera também as muitas formas como essas feridas abertas na infância ressurgiram mais tarde.

“É essa a herança verdadeira da violência: as marcas que deixa, a vida que instala em nós. O pânico que chega sem aviso, as invasões de tristeza que sobem sem pedir licença, a dificuldade em falar, confiar, os bloqueios e transtornos.”

A narrativa articulada que partilha, certamente fruto de muita auto-reflexão e influenciada pela literatura à qual se agarrou “como quem se agarra a uma corda que outros já tinham atado antes de mim“, abre luz a uma realidade que, apesar da forma sensacionalista e particularizada como os casos que vêm a público são abordados, está ainda extraordinariamente presente, em Portugal e no mundo. É precisamente esta capacidade de apresentar a narrativa de uma forma articulada que pode fazer a diferença entre receber p.e. um diagnóstico de stress pós-traumático – que reconhece a validade do que a pessoa sente como uma resposta a algo que lhe aconteceu – e um diagnóstico de esquizofrenia, em que as vozes ou o medo (~paranoia, perseguição…) são julgados como mero sintoma. A saúde mental não se faz de categorias, mas de continuidades, de fios e histórias que nos conectam.

“Também houve quem, entre nós, atravessasse um problema de consumos, uma dessas encruzilhadas em que uma pessoa pede socorro sem saber pedi-lo. (…) Se a lei portuguesa fosse outra, teria sido detido, e era isso que se procurava: a punição judicial de quem precisava de cuidado.”

Não creio que deixará alguma vez de ser para mim uma surpresa e uma fonte de esperança a forma como as pessoas fora do sistema de saúde mental tão facilmente ligam os pontos e entendem a história e o contexto das formas criativas (tantas vezes dolorosas) como as pessoas tentam fazer sentido do que dói. Quando entendemos isto, percebemos que criminalizar os consumos não é resposta, como tampouco pode ser resposta um sistema de saúde mental dependente da coerção.

O autor refere ainda que sabe ter o pai perpetrador sido também ele vítima de violência; estas histórias, de facto, estão longe de começar e terminar no indivíduo, mas falam e denunciam condições históricas e sociais que o modelo biomédico empurra para o silêncio, reduzindo a condições intraindividuais o que brota na relação, na relação entre os indivíduos e na relação destes com o mundo – em palavras técnicas, os determinantes sociais de saúde.

Fabian termina partilhando a “razão de esperança” deste texto:

“Escrevo isto, no fundo, por uma única razão, e é uma razão de esperança, ainda que sóbria. Estas histórias contam-se aos milhares em números, todos os anos. Quase nenhuma se conta em palavras. Quem as viveu aprendeu cedo que o silêncio era condição de sobrevivência: aprende-se a calar dentro de casa, e continua-se a calar muito depois de a casa ter ficado para trás. Só que o silêncio, que começou por nos abrigar, acaba a abrigar o que nos fez mal. Escrevo contra essa herança. Escrevo para dizer que se pode sair, ou pelo menos tentar, que o caminho em que a violência nos mete não é uma sentença, ainda que seja um declive e que pedir ajuda, tarde como seja, não é fraqueza, é força. Houve alturas em que me agarrei à vida com as duas mãos. Hoje sei que ninguém tem de o fazer sozinho, e é também por isso que escrevo. Estou a tentar fazê-lo, agora, com a ajuda que durante demasiado tempo não consegui procurar.

Escrevi atrás que me agarrei à literatura como quem se agarra a uma corda que outros tinham atado antes de mim. Não tenho a pretensão de atar nenhuma. Mas se alguém, no meio do seu próprio silêncio, tropeçar nestas páginas e encontrar nelas um fio por onde se segurar, a certeza mínima de que não está sozinho, de que houve quem passasse por ali e continuasse, então este texto terá feito o seu trabalho. Não escrevo isto do outro lado da margem. Estou muito longe disso. Escrevo-o na travessia.

Não sei se é isto que a frase atribuída a Hemingway quer dizer. Sei que estas páginas são sangue do meu sangue: não a ferida, mas o que dela nasceu e já não lhe pertence.”

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui