Resposta a crises emocionais: A Abordagem das Casas de Repouso Geridas por Pares/Casas Soteria Comparada com a Abordagem Convencional

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Traduzido por Celina Vilas-Boas

Este artigo é um convite para abrirmos as nossas percepções a outras abordagens de apoio às pessoas em situação de crise emocional. Em vez de patologizar o comportamento, podemos usar o questionamento curioso para explorar a lógica que está a funcionar. “O que é que este comportamento está a servir ou a apoiar?” ou “Qual é a história que esta metáfora está a tentar contar?” ou até, simplesmente, “O que é que aconteceu?” Assim, com compaixão, procuramos a lógica que foi utilizada pela pessoa em sofrimento para sobreviver.

A retração, o entorpecimento ou a dissociação são sinais de uma lógica que foi eficaz na gestão da situação e/ou das emoções, dadas as circunstâncias. Respeitando os nossos mecanismos de sobrevivência como inteligência em ação, podemos então explorar suavemente as camadas de distanciamento (ou entorpecimento e retração), dando-lhes mais espaço e apoio para serem sentidos. Isto permite que mais compreensão e sabedoria fluam e tragam alívio. Há menos necessidade de compartimentar e entorpecer.

Por uma questão de transparência, direi que há décadas atrás passei 15 meses, quando era adolescente, numa instituição psiquiátrica convencional e fui rotulada como tendo esquizofrenia crónica. A paixão que alimenta este artigo é um desejo profundo de me libertar de qualquer forma de opressão que torne a minha vida mais pequena do que precisa de ser, mas particularmente a opressão da saúde mental (a vontade de parecer “normal”), que tem sido o trabalho da minha vida. Aprendi que, à medida que me liberto das camadas de entorpecimento, posso trazer mais luz para aquilo em mim que me torna mais completa, madura e sábia. Curar traumas permite maior fluidez, flexibilidade no nosso pensamento e estar mais presente, aceitar melhor a diferença e as diferentes percepções de como a vida deve ser.

O que quer que eu resista persiste; o entorpecimento ou negação é a cola que serve de barreira ao aumento da auto-consciência. Não precisamos de anular o que sentimos, mas sim de o explorar suavemente, vendo que emoções podem surgir pelo caminho. E podemos fazê-lo com outras pessoas em quem confiamos e que estão dispostas a ouvir e que são, por isso, um recurso para nos tornarmos mais assentes no nosso corpo. Desta forma, podemos expandir a nossa relação connosco próprios, com os outros, com a nossa família e, talvez, com os nossos antepassados – e, se decidirmos ir mais longe, podemos explorar a nossa relação com a terra e o universo.

Cada um de nós tem o poder de melhorar a sua auto-consciência e resolver as partes fixas ou endurecidas de nós próprios. A liberdade é a transcendência, a elevação da nossa consciência. Assim, podemos limpar as nossas lentes perceptivas e deixar que mais do mundo entre em nós. Este é o cerne da abordagem das casas de repouso geridas por pares/Casas Soteria à resposta a crises emocionais, e contrasta de forma notável com a abordagem da psiquiatria convencional.

Para ajudar a esclarecer estas diferenças, convidei diversas pessoas para participarem num diálogo. Cada pessoa convidada tem experiência como destinatária de serviços numa casa de repouso gerida por pares, numa Casa Soteria, ou num ambiente convencional, e/ou experiência como membro da equipa de qualquer um destes. Agradecemos muito a Cindy Hadge, Adrian Bernard e Burt Mooney por terem partilhado a sua sabedoria e experiência no nosso diálogo, e um agradecimento especial a Grace Silvia, que co-escreveu as comparações específicas destas diferentes abordagens, que são explicadas abaixo.

Para clarificar a linguagem, o termo “casa de repouso gerida por pares” refere-se a uma alternativa ao internamento numa instituição psiquiátrica e, em vez disso, oferece um ambiente voluntário, semelhante a um lar, sensível ao trauma, na comunidade, onde as pessoas são assistidas durante a crise. Semelhante às casas de repouso geridas por pares, mas diferente em alguns aspectos, o modelo Soteria utiliza principalmente pares como pessoal e baseia-se nos princípios da permanência voluntária e do modelo de recuperação, incluindo a utilização mínima de drogas neurolépticas. A casa Soteria original foi fundada por um psiquiatra, e não por um par, e, como estudo de investigação, tinha directrizes específicas que impediam a participação de alguns grupos de pessoas. Ambos os programas estão a espalhar-se pelo mundo e estão a evoluir. Alguns fazem as coisas de forma diferente, por vezes por opção e outras vezes devido à fonte de financiamento e/ou ao ambiente político.

Todas as citações neste artigo são dos nossos participantes no diálogo; as suas palavras trazem claridade às comparações das respostas a crises emocionais.

Comparações

O meu terapeuta disse: 'Vamos falar sobre a sua infância'. Eu disse 'a casa está a arder, quero descobrir como dormir'. Fui fechada num quarto isolado sem nada para além de uma sanita e disseram-me que era para minha segurança. Não me senti segura.

A abordagem convencional entende os comportamentos apresentados como reflexo de uma mente perturbada, doente ou quimicamente desequilibrada. A crise emocional subjacente não é normalmente considerada. Por outro lado, as casas de repouso/Soteria entendem a crise emocional como algo que pode acontecer quando as circunstâncias excedem a capacidade atual da pessoa para lidar eficazmente com a situação. Os comportamentos de resposta a crises são frequentemente vistos como tendo um significado importante para a vida da pessoa e podem estar relacionados com traumas.

Muitas vezes, às pessoas que desempenham funções clínicas é-lhes colocada a expetativa impossível de que têm controlo sobre as pessoas e que, se elas não são bem sucedidas, a culpa é sua. No trabalho com pares, sei que não tenho controlo sobre os outros. De facto, provavelmente não sei o que é melhor para eles. Teria de falar com eles e ouvir a sua história no contexto da sua angústia. Não vou partir do princípio de que sei. Faço parceria com eles, para tentar ser honesto e vulnerável em relação ao que me está a acontecer e às minhas limitações. Espero estar a criar um espaço para que eles encontrem a sua própria solução, para que usem a sua sabedoria interior para descobrir o caminho que faz sentido para eles.

Na Soteria a equipa nunca nos julgou ou tentou guiar-nos para uma terapia em particular. Uma parte de mim sabia o que tinha de passar e a equipa estava lá para me apoiar… sem que eu fosse drogada, coagida e diagnosticada… Fui muito abençoada por ter estado num ambiente onde pude ter essa experiência e sair do outro lado e aprender quem eu sou.

O objetivo da abordagem convencional é reduzir ou eliminar os sintomas, tornando a pessoa mais fácil de gerir e de se conformar com as normas culturais dominantes. Acredita-se que a pessoa em crise não sabe o que é melhor para si própria. Assim, a tónica é colocada na modificação do comportamento. Em contraste, as casas de repouso/Soteria criam um espaço de respeito mútuo onde é oferecida compaixão e a escolha individual é honrada. A pessoa em crise apercebe-se de que não está sozinha, pode recuperar o seu poder e encontrar significado na sua experiência de crise. O foco está em aprofundar a auto-consciência.

A abordagem convencional é muito baseada no medo. O sucesso é não ouvir vozes ou não ter grandes sentimentos. No apoio de pares, a questão é saber como é que isso faz sentido e qual é o contexto da tua angústia. Existe a convicção de que, por mais invulgar que seja a experiência ou a crença, se olharmos para a experiência de vida de alguém, ela faz sentido.

De que segurança estamos a falar? Muitas vezes, o que está em causa é mais o facto de os funcionários se sentirem seguros.

Comecei a trabalhar num sítio onde tinha estado internada. Os funcionários diziam: "Oh, tu és uma pessoa diferente". Eu disse: "Eu estive sempre aqui, vocês é que não estavam a ver. Diziam-me: toma os teus medicamentos e sê feliz com uma vida muito limitada.

O que é que os dados de investigação mostram? Considerando a abordagem convencional, uma análise de mais de 100 estudos realizados em todo o mundo concluiu que “o período imediatamente a seguir à alta é um período de risco acentuado, mas as taxas de suicídio permanecem elevadas durante muitos anos após a alta“. Outro estudo concluiu que “o risco de suicídio aumentou durante todo o período de admissão e pós-alta, mas atingiu o pico na primeira semana de admissão e na primeira semana após a alta“.

Especificamente no que diz respeito às intervenções psicofarmacêuticas: existem alguns benefícios a curto e a longo prazo para alguns doentes; no entanto, os dados a longo prazo revelam efeitos debilitantes significativos, incluindo uma redução de 20 anos na esperança de vida e a interferência na recuperação a longo prazo para muitos. Por outro lado, os dados revelam benefícios significativos das abordagens de apoio de pares e das Casas Soteria a muitos níveis. Os dados relativos a casas de repouso geridas por pares revelam melhorias na autoestima, na capacitação, na atividade social e na autoavaliação dos sintomas de saúde mental; redução de custos; redução de 70% na utilização de serviços de internamento ou de emergência; e muito mais.

As taxas de suicídio aumentam depois de se estar no hospital. A hospitalização forçada está a aumentar o suicídio. O que a pessoa aprendeu é que não deve falar sobre isso, porque é assim que a alegada ajuda se parece. Não perderam os sentimentos. Aprende a mentir para sair do hospital. As pessoas que falam de suicídio não o estão a fazer. É triste estar nessa altura da vida e ser atirado para o passeio pela polícia porque se pode magoar. Tomar drogas psicológicas, medicação, não é falar sobre o contexto da sua angústia.

Em termos de dinâmica de poder, a abordagem convencional caracteriza-se por uma abordagem de poder sobre. As decisões são orientadas ou impostas por profissionais cujo conhecimento especializado é inquestionável. O foco é a conformidade; a abordagem é muitas vezes coerciva, o que é frequentemente sentido pela pessoa em crise como uma violação. Em resposta, a pessoa em crise pode retirar-se, obedecer ou agir com raiva em reação à coerção e ao facto de não ser vista, ouvida ou compreendida.

O pessoal do hospital quer-me regulado e estável, o que para mim significa entorpecido e mudo.

Quando funcionários convencionais perguntam pela segurança e a tua resposta é "não me sinto seguro", a resposta dos funcionários é "vamos manter-te seguro. Agora tira toda a tua roupa em frente a este estranho e coloca-a num saco de papel. Vou tirar-te o telemóvel e todas as tuas coisas e fechar-te num quarto"… Uma parte da segurança é a transparência. Se há regras, sê transparente. Digam-me o que se está a passar - mesmo que eu não possa responder verbalmente; mantenham-me informado.

Em contraste, a abordagem das casa de repouso geridas por pares/Soteria é de poder com, em que as decisões são orientadas pela pessoa em crise, cujo conhecimento de si própria e da sua situação é honrado. A tónica é colocada na criação de um espaço seguro, ouvindo, explorando a experiência e a perspetiva da pessoa e apoiando-a a pensar e a sentir o seu caminho através da crise, mesmo que isso signifique ir para o desconhecido e tolerar a incerteza.

Quando era jovem, não me sentia segura no meu corpo… Trabalhar agora no serviço de apoio de pares é um processo de formação constante para levar as pessoas a pensar de forma diferente sobre o significado de segurança… temos tendência a certificar-nos de que não descemos a ladeira escorregadia do controlo e do poder. É uma negociação constante e honesta uns com os outros e connosco próprios. Tenho uma relação diferente com a palavra segurança. Agora é uma coisa bonita porque, internamente, sinto-me segura em mim própria e em quem sou no mundo.

Outro domínio é “estar com versus fazer para“. A abordagem convencional consiste em avaliar a pessoa e minimizar ou eliminar comportamentos, sentimentos ou ideias considerados problemáticos, recorrendo principalmente a medicamentos psiquiátricos. As pessoas em crise emocional podem responder com a necessidade de se protegerem ou defenderem devido à pressão para aceitarem a definição da sua experiência como um desequilíbrio químico/doença mental, e para aceitarem o diagnóstico e o tratamento que lhes é imposto. No entanto, a intenção do apoiante das casa de repouso/Soteria é criar um espaço seguro para “estar com“, ouvindo a pessoa em crise, explorando em conjunto o significado literal ou simbólico da crise e apoiando a pessoa a ir ao encontro das suas necessidades e desejos expressos.

O apoiante também nota o impacto das suas próprias palavras e acções para garantir que a pessoa em crise se sente ouvida e validada. Esta abordagem convida à abertura da pessoa em crise emocional e promove a capacidade de olhar para a sua experiência interior, o que lhe permite ultrapassar a crise e refletir sobre as suas esperanças e intenções para o futuro.

A abordagem convencional é: "Queremos obrigá-lo a pensar nesta caixa, no mundo que estamos a definir para si. No entanto, no apoio de pares, caminhamos ao lado delas e estamos muito mais abertos à possibilidade de as pessoas viverem as suas vidas da forma como querem ser definidas e como querem vivê-las. Fazemos a experiência juntas. É um lugar onde as pessoas podem expressar coisas profundas e dolorosas. Não tentamos controlá-las, temos várias conversas. Trata-se de saber o que está a levar a isto, como se sente em relação à vida e explorar isso de uma forma mais profunda. Somos essencialmente uma família, como comunidade. Estamos aqui uns para os outros, uns com os outros. Acompanhamos as pessoas em situações bastante intensas.

Consideremos o trauma. Na abordagem convencional, os comportamentos, emoções e/ou ideias problemáticas são frequentemente entendidos como sendo causados por desequilíbrios químicos cerebrais (possivelmente com uma base genética). Pode ser dada alguma atenção ao trauma, mas não como uma causa subjacente. Muitas vezes, a equipa não utiliza uma abordagem informada sobre o trauma. Assim, ocorre uma re-traumatização. Pouca consideração é dada à traumatização de funcionárias/os, de outras/os pacientes e de outras pessoas que testemunham as várias intervenções. O uso de medicamentos psiquiátricos pode mascarar e agravar o trauma.

Muitas vezes, estar no hospital não tem a ver com curar o trauma, ou criar uma vida que se deseja, ou criar um ambiente familiar. Trata-se de conter e medicar uma pessoa até ao ponto em que ela não tem energia para fazer nada. É isso que é a recuperação. A pessoa mal consegue andar, por isso não vai causar problemas.

As casas de repouso geridas por pares /Soteria compreendem que o trauma pode estar envolvido em qualquer crise que interrompa a vida. O trauma pode ser individual, intergeracional, comunitário e/ou histórico e inclui os traumas do racismo, sexismo, pobreza e outras formas de opressão sistémica que têm impacto na vida das pessoas e são frequentemente perpetuados pelos sistemas de saúde comportamental, educação, política e justiça criminal. A pessoa em crise é apoiada para confiar na sua sabedoria, chegar ao seu próprio entendimento sobre a sua experiência e determinar os seus próximos passos.

Este pior momento que estou a viver pode ser um catalisador para algo grande e maravilhoso, em vez de uma catástrofe.

Consideremos a relacionalidade, ou a forma como as pessoas estão ligadas. O assistente convencional mantém uma distância profissional da pessoa em crise. Geralmente, as feridas colectivas não foram nomeadas, mas antes normalizadas com mensagens sociais multissistémicas de “A vida é assim” (por exemplo, racismo, sexismo, classismo, etc.). Os apoiantes de casas de repouso geridas por pares/Soteria envolvem-se emocionalmente e convidam à aprendizagem mútua, incluindo a partilha das suas experiências de crise e do que os ajudou, se a pessoa em crise estiver interessada e considerar isso útil.

À medida que a relação se aprofunda, a pessoa em crise pode sentir-se mais segura para explorar o significado que a crise e as suas emoções podem ter para ela. O facto de se envolverem juntas convida a uma reflexão e à integração das suas experiências. Assim, a pessoa pode libertar-se das reacções aprendidas e dos mecanismos de defesa do passado e experimentar respostas que a sirvam melhor. Isto pode levar à criação de uma vida que esteja mais alinhada com o seu “eu” mais profundo, os seus valores e a sua visão.

Quando as pessoas têm mais poder de ação, se sentem mais fortes, têm mais ligações à comunidade ou uma família que as apoia, então são capazes de aguentar o processo de exploração interior.

Por último, vejamos o uso da aplicação da lei. Convencionalmente, a aplicação da lei concentra-se normalmente no controlo da pessoa em crise, que é vista como volátil e potencialmente prejudicial para si própria ou para os outros. Por vezes, recorre-se a intervenções agressivas, que podem ir até à força letal. Estas intervenções têm frequentemente um impacto negativo na pessoa em crise, nos agentes da autoridade, nas testemunhas, nas famílias e na comunidade. Por outro lado, as estadias em casas de repouso geridas por pares/Soteria são completamente voluntárias. Quando a casa de repouso gerida por pares ou a Casa Soteria está disponível, muitas vezes não há necessidade de recorrer à polícia. A equipa e os apoiantes concentram-se em incorporar formas sensíveis ao trauma para envolver a pessoa, incluindo a consideração pela segurança física, ambiental e emocional.

Espero que este artigo tenha iluminado alguns processos essenciais para a cura de traumas, mágoas ou humilhações e/ou a importância de respeitar a necessidade de proteção da pessoa. Convido-o, caro leitor, a abrir ainda mais o seu coração e a sua mente e a acreditar plenamente no potencial de cada ser humano. Cada um de nós tem a capacidade de ser uma gota de medicina que contribui para a construção de comunidades de cura. Se leu este artigo com uma mente aberta, gostaria de partilhar um último pensamento: Se não virmos a outra pessoa em termos do seu potencial futuro mais elevado, então estamos a praticar violência atencional. Ensinam-nos que “é assim que as coisas são”, mas eu, com todo o respeito, digo que isso é ver através de uma lente de mágoa e dor.

Como Otto Scharmer defende, “Violência atencional é não ser visto e reconhecido em termos de quem tu realmente és – em termos da tua maior possibilidade futura. Em vez disso, somos vistos apenas em termos da nossa jornada do passado, ou seja, em termos das circunstâncias do passado, em termos de quem somos hoje.”

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