Um banco que não é um banco mas é um banco

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Transpus, pela primeira vez, a cerca do Júlio de Matos a 18 de fevereiro de 2025, a propósito de uma residência artística organizada pelo coletivo +1masuno, em parceria com o Pavilhão 29 – mas, sobretudo, por acidente criativo: parecia pretexto justo, útil, certamente, curioso para satisfazer a minha urgente vontade de (re)descobrir-me como antropóloga in situ. Desta vez, sacudidas as matrizes académicas, predispunha-me, recetiva ao encontro, à composição de um diário multimodal sobre o período ali situada; o que implicaria pesquisar idioma legítimo, forma(s) própria(s), e sentido para o que seria estar-viva naquele território durante aquele tempo. Palavras de ordem: (re)imaginar, (re)contextualizar, (re)estruturar, incorporar a experiência.

Nesse primeiro dia, chego antes dos colegas-artistas e da mediadora ao espaço, novamente, novo ou desconhecido. Para entreter a espera, procuro e encontro, longe, um banco. Dirijo-me a ele, certa de que sustentará o meu corpo, e: partido. Exatamente, ao centro. No impasse, reparo num outro, muito próximo – corro até ele e: partido. Na verdade, lascado, com fendas, contornos corroídos; fundamentalmente, lasso e em iminente quebra. A minha primeira nota de campo, à pressa, de pé: bancos partidos + pombo morto.

Foram-se revelando, entre pavilhões, mais bancos de concretude em falha – frequentemente, com os remanescentes dos seus desastres, fragmentados no chão onde pareciam ter-se precipitado. À medida que reconhecia o território dentro-muros, catalogava os espécimes: banco nº x (fotografado), disposto na zona y, marcado por z. Não me movia intenção particular e até julgava ser ato subversivo (pelo menos, obsoleto) da produção etnográfica ou da aspiração artística que ali me contextualizava. No entanto, perante a latente ausência de ser (a ideia de assento justaposta e coincidente com a sua perda de função – existem para sentar ao mesmo tempo que são inábeis nesse exercício), ia apaziguando a minha inquietação com a metabolização da sua hauntologia (ou melhor, inquirindo os seus fantasmas):

Quem o partiu?

Quem?

            Ou o quê?

Porquê?

Por querer?

Alguém o viu e deixou-o assim? Pensou sobre ele? Tentou compô-lo?

Serve na mesma

            ou renovou a sua utilidade?

 É útil?

É?

Deveria ser?

As não-respostas que somava traziam-me um exercício-brincadeira clássico do Teatro de Improviso, nomeado, precisamente, Banco de Jardim:

No palco, existe um banco de jardim genérico que se concretiza ao ser imaginado (cena a cena). Instrução: à vez, cada um improvisa uma cena em relação com ou a partir (à sua volta, em cima dele, sobre o mesmo, com ele ou por sua causa) do banco de jardim que imagina ou que é convidado, pela cena anterior, a imaginar.

À revelia da coleção de fantasias, fui-me surpreendendo com a realidade: o banco mais frágil que conheci: estrutura de ferro só com 4 ripas de madeira, 2 delas presas num só flanco. Ao seu lado: banco imaculado, exceto na inscrição decalcada com lâmina fina onde se lia “amo-te”. Entre as (d)estruturas e especificidades, observei, num e noutro momento, um homem sentar-se, entre vestígios de madeira, parafusos e jogos santa casa. Aliás, no dia em que eu própria me atrevi, um minuto bastou para ter companhia: um senhor mais velho demorou a encarar-me sobre o banco partido e decidiu-se, também, a ali almoçar em arquitetura equilibrista.

É um banco que não é um banco, mas é um banco.

Tomou-me de assalto a necessidade de reparação e só tolhi o meu impulso de atar pontas soltas e costurar remendos, quando em conversa com três residentes, ouvi:

Não sei de nada

                                                           Não fui eu

Não sei

Não sei

Não sei                     mesmo

Não tenho nada a ver com isso…     Não fui mesmo eu!

.

.

.

esbocei uma ponta de culpa com as minhas inquisições

.

Partidos?

Ah! Não vi

(se calhar, deviam ser consertados… não?)

Dá para sentar…

(?)

Dá para sentar!

Dá

Dá para sentar.

O banco é, de facto, uma palavra polissémica – permito-me a escolher as minhas definições preferidas:

            1. Assento estreito e comprido.

            2. Assento individual, sem encosto e sem braços.

            7. Sala de hospital onde se recebem consulentes externos (ex. banco de urgência).

            14. Lugar onde se guarda ou deposita alguma coisa para ser usada por outrem (ex. banco alimentar, banco de leite materno).

            15. [Medicina] Conjunto de instalações onde se armazena e conserva material orgânico e eventuais derivados para utilização futura (ex. banco de sangue).

Na segunda semana, depois de uma sessão comunitária com custos e angústias, anotei: as relações aqui parecem tornar-se mais reais e, por isso, mais difíceis, como se, em parte, estalassem o verniz, lascassem e até partissem como os bancos.

Foi-se abismando esta certeza de que lá, como em mim (confessamente, próxima e, redondamente, longe do hospital), se comporta um qualquer peso que envelhece e se desgasta, pode ferir, objetificar-se doente, e dói-dói-dói-dói.

Mas no extremo oposto, que logo lhe toca, há uma outra substância, mais límpida, que deixa olhar, parar, reparar, sentar, sentir, estar  –   em   –   relação.

Sento-me para (re)colher dentro-fora, faço-desfaço-refaço o(s) vínculo(s), e reservo-me a uma (p)e(r)sc(r)uta sobre quais e quantas fraturas amparo. E por-que sentidos.

Estrutura em ferro, vidro acrílico, metal gravado e corrente (90 x 150 x 50, dimensões aproximadas)

(Hoje, triste no íntimo por questões agora pouco importantes e com um ligeiro anseio decorrente de não dizer o que quero ou não saber como, entalo o dedo aos círculos na fenda estilhaçada da chávena do meu café.)

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Adriana Santos Lopes

Por incauto ou acidente, encontrou na antropologia poiso para o seu intenso interesse pelo mistério de estar-no-mundo.

Com formação académica, arquitetada entre a Universidade Nova de Lisboa e a Universidade de Coimbra, deambulou entre tentativas multimodais e experimentais do método etnográfico, articulando-o com práticas artísticas contíguas que agilizam o corpo-arquivo - designadamente o filme, a fotografia, o desenho, a performance e a escultura. Cartografou paisagens-em-movimento do Hospital Júlio de Matos, de Várzea de Calde, com as suas mulheres-mirtilo, e do grupo de teatro comunitário dISPAr.

Antes disso, estirou o corpo adolescente no linóleo de estúdios de dança; suspirou na floresta até sair de Viseu; e desistiu de salvar o mundo com Direito.

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