“25 de Abril”, por Daniele Poccia

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Este texto pretende servir de «relato», no duplo sentido do termo: como texto reflexivo e como ocasião de encontro. É daí que nasceu (de uma amizade que levou o autor a confrontar-se, por acaso, até mesmo com a realidade dos serviços psiquiátricos em Portugal) e é daí que se entrega, finalmente, à comunidade Mad in Portugal.

O texto refere e confronta duas experiências diferentes de participação, vividas por volta do dia 25 de abril, em atividades de musicoterapia e de escrita criativa, em duas unidades psiquiátricas distintas do país. As observações recolhidas, arranjadas de forma decidida para uma disposição horizontal, pretendem aqui seguir uma ordem de discurso alternativa àquela que é frequentemente autorizada nesses contextos, num sentido vertical e exclusivo. O autor chama a este resultado ‘holosemiontes’.

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25 de abril

Devia ter-vos dito adeus, hoje, em que o mundo que conheço está em festa, comemora-se o aniversário da última revolução, e a massa humana espalha-se indomável pelo relvado, enquanto de novo as tropas inimigas recuam de forma porosa, mas uma coisa é certa, se o fizesse, se me deixasse mesmo levar por este gesto oblíquo, nunca alcançaria o olhar daquele rapaz português, já não me lembro do seu verdadeiro nome, vivia ele num lugar que ninguém mais ousaria chamar-lhe manicómio, absolutamente ninguém1, o sol que brilhava nas janelas da sala de refeições tinha reflexos tão atrevidos que nunca mais se apagarão das minhas pupilas, e porque é que ainda me comovo quando penso nele, é uma pergunta que devia fazer-me antes, aos outros com quem estava sentado em círculo, já ninguém mais cria desde que a primeira alma terrena se uniu ao primeiro corpo celeste, como uma única nota que brota da mesma guitarra hipnótica do mesmo rapaz português, ou da voz encantada de algum outro mensageiro que ficou no poço a cavar no fundo2, que me falava de um cantor da minha pátria que há anos deve ser a sua veleidade mordiscada3, alguém teria querido que eles também aprendessem a tocar, afinal de contas, e talvez até a pensar de forma adequada, vai-se lá entender4, eu contudo nunca me teria esforçado para não olhar fixamente nos olhos daquela mulher5, na vez seguinte, o que eles me queriam dizer, era o enigma do meu dia, teria sido bom passar juntos a noite lá, a beber e a combater a insistência do mal, dizia-se que era amante de um deus que se desfigurara antes do tempo, ela também residia no único lugar onde a cura coincide com o exercício da liberdade, e o instinto de não exigir o amor é metodicamente confundido com uma violação do galateu burguês, ou cortês, a diferença é a mesma que existe entre os insultos acumulados por um polícia durante um confronto nas ruas e o exato número de comprimidos engolidos desde o ano da habilidosa invenção da psiquiatria, caso contrário eu não teria procurado a aprovação de outro grandalhão desemparelhado, que amontoava palavras de origem estrangeira e ria-se com pequenas explosões catarrosas, a sinalizar que nada permanece igual, formávamos um grupo livre de aderências secretas com as ofensas mais antigas6, e eu nunca teria aprendido a falar de ‘contemplação’ à uma da manhã, com dois amigos que vencem os seus medos a cada segundo, para recomeçar do zero no segundo seguinte, e uma rapariga que não fica calada só quando tiver compreendido7, e, no resto do tempo, parece guardar dentro de si o bater de asas de toda a noite, porque, independentemente de quem de nós estivesse de que lado da muralha, não éramos de forma alguma os únicos a atormentar-nos com uma questão tão contaminada, sentíamos o murmúrio de gerações de indivíduos considerados incapazes, coisas que não se esquecem nem mesmo quando se está amarrado a uma cama de hospital, quando já não há um frágil sussurro a implorar, e eu não teria passado uma semana inteira a viver todo aquele tempo em conjunto, à volta de uma mesa ao ar livre, não teria sido suficiente para mandar para o inferno vinte anos de uma carreira impossível, apenas alguns dias depois, e para me fazer ler um poema na presença dos que saíram da caverna, onde há luz a mais para olhar nos olhos de quem já não tem vontade de falar, e não teria podido evitar ficar para sempre em suspenso, com mais uma revolução a menos no bolso do casaco, esperava que as minhas vibrações ressoassem em uníssono com a rajada de imprecações impercetíveis que há séculos se lança atrás de nós, que fossem o resultado de uma cooperação inesperada entre as heresias mais fantasiosas de cada bairro, uma mistura inédita de denúncias sempre demasiado imaturas, que permaneceram em silêncio durante demasiado tempo por causa de palavras colossais de pedra, todas pegajosas, agora sei que teria sido um golpe baixo desferido contra o único que nunca levei a sério8, que eu teria olhado de forma desfavorável para todos os meus entes queridos, depois, colocando-me no único lado que não existe, e que nunca, mas nunca, poderia ter tentado, apenas tentado, contar isso tudo, a não ser em troca de mais uma dose, se é que ainda se pode chamar-lhe ‘vida’, é, de qualquer forma, o único quadro, numa perspetiva política, cujo ponto de fuga nunca encontrarei9.

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Mad in Portugal acolhe blogues de diversos autores. Estas publicações foram concebidas para servirem de fórum público de debate – em termos gerais – sobre a psiquiatria e os seus tratamentos. As opiniões expressas são as dos próprios autores.


  1. A exortação é que o texto dê lugar a uma questão (politicamente não neutra), que abra um espaço de reflexão. ↩︎
  2. Breve referência a uma teoria sobre a função da psicopatologia: o fundo do poço é o local onde se acumulam as questões sociopolíticas por resolver. É por isso que existe um mensageiro isolado, que nos confronta com as questões-limite mais difíceis de manejar. ↩︎
  3. A pátria em questão é a Itália, país onde, a 25 de abril, se celebra, tal como em Portugal, a «libertação». ↩︎
  4. Mais uma vez, um questionamento: o que significará, afinal, «pensar propriamente»? Quem é que detém o conhecimento necessário para decidir o que é pensamento e o que não é? Será que se chama pensamento «aquilo que se responde», um pouco como sugerem as atividades expressivas que são propostas no hospital? ↩︎
  5. O «eu» teria querido fixar aquele olhar, mas esforçou-se por não o fazer. ↩︎
  6. As aderências são explícitas: os corpos em jogo nessa situação são corpos que interiorizaram as ofensas mais antigas, de forma tão profunda que se tornaram seus portadores. ↩︎
  7. Não se trata de um mutismo sintomático. Ela optava por falar só mal tiver entendido. ↩︎
  8. ↩︎
  9. O qual nunca conduzirá a uma situação de domínio sobre o cenário problemático da vida. ↩︎

Leitura pelo autor

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Daniele Poccia
Daniele Poccia (L’Aquila, 15 de julho de 1983) é filósofo, ativista e escritor. Obteve um doutoramento internacional em filosofia pela Universidade do Salento e pela Sorbonne Paris IV. Apesar da sua formação, certas experiências, como o terramoto que atingiu a sua cidade, em 2009, e o confronto com os dispositivos repressivos da psiquiatria levaram-no a repensar a sua escrita e a orientá-la para formas que não fossem apenas argumentativas. Publicou textos de diversa natureza (ensaios, contos, diálogos) em revistas italianas e internacionais. Traduziu livros de Henri Bergson, Raymond Ruyer e Louis Weber. Militou no coletivo de «Casematte» (L’Aquila) e colabora com a companhia de teatro dos «nontantoprecisi (Roma). É membro do coletivo de investigação interdisciplinar C.C.C.C. (Cybernetics, Chaos, Catastrophe, Complexity).

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