“Esquece isso”? Uma resposta para capacitar os pais a reparar a relação em vez de apontar o dedo

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Traduzido por Celina Vilas-Boas

O distanciamento familiar está a aumentar, lê-se nas manchetes, seguido de muitos artigos sobre o estabelecimento de limites saudáveis, comunicação, cuidados pessoais e maturidade emocional. No entanto, um artigo recente intitulado “Growing All The Way Up” (a versão online intitula-se “The Words Every Adult Child Needs to Hear“, janeiro de 2024) na Psychology Today sugere que os filhos adultos que se afastam dos pais assumam o controlo da criação da vida que desejam, “ultrapassando velhas mágoas” que possam ter com os pais. Afirma: “Nos consultórios de terapia e em conversas casuais, é comum ouvir as pessoas queixarem-se de como os pais as ‘estragaram’.” A essência da primeira metade do artigo é que ninguém é perfeito, anda p’ra frente. O que me preocupa é o facto de este tom culpar a vítima, pelo que gostaria de tecer algumas considerações a partir da minha experiência e da rica literatura sobre acontecimentos adversos na infância.

Ao longo dos últimos 20 anos da minha carreira como psicóloga, atendi milhares de pacientes de dezenas de países e nunca conheci uma única pessoa que chegasse à terapia a culpar os pais pelos seus problemas. Também já liderei grupos de supervisão de pares e nunca um único psicólogo disse que o paciente estava preso na culpabilização dos pais. Nem uma única vez.

O que tenho testemunhado são clientes com medo de culpar os pais e de “ser assim” – medo de serem acusados de culpar os outros pelos seus problemas. É preciso muito trabalho doloroso para que eles reconheçam o mal causado e como isso se relaciona com aquilo com que estão a lutar, para que possamos então avançar para a cura, o crescimento e a mudança. Eu colaboro com os clientes na criação de objectivos e nunca notei que “culpar os meus pais” fosse um desses objectivos. Os objectivos são mais frequentemente sobre auto-expressão, auto-cuidado, perdão e reparação de relacionamentos.

No entanto, já tive clientes que vieram à terapia a culpar os filhos pelos seus problemas. Se ao menos o seu filho fosse isto ou aquilo, tudo estaria bem. Afirmações como: “Eu dei-lhes tudo, porque é que eles não podem ser…” ou “Eu tive tudo muito pior, porque é que eles se queixam?” Trabalhar a ideia de ter um “filho falhado” ou o seu próprio sentimento de fracasso ajuda estes clientes a libertarem-se e a avançarem para a reparação.

A perfeição dos pais nunca é esperada
O artigo afirma que as pessoas ficam presas na culpa dos pais, como por exemplo: “Estou irrevogavelmente danificado porque eles não eram perfeitos”. O trabalho profundo com os meus clientes revela que esta é precisamente uma mensagem central muitas vezes incutida originalmente pelos pais (não pela criança) que a criança interiorizou. O trabalho colaborativo em terapia consiste muitas vezes em desaprender esta mensagem e reaprender a cuidar de si próprio com aceitação, compaixão e amor. Nenhum cliente alguma vez expressou a expetativa de que os seus pais deveriam ser perfeitos, mas procuraram uma interação básica, respeitosa e saudável. Os pais que querem que os seus filhos “passem à frente” são os que estão a ter dificuldade em assumir a responsabilidade pessoal pelos danos que causaram.

Reparar rupturas nas relações é frequentemente um objetivo da terapia, especialmente entre filhos adultos e os seus pais. A intenção não é culpar ninguém, mas sim atribuir adequadamente a responsabilidade às pessoas cujo comportamento causou danos. O não reconhecimento deste facto perpetua a auto-culpabilização dos filhos adultos, independentemente da idade.

Diferencial de poder inerente à relação entre pais e filhos
O artigo não reconhece que, independentemente da idade, a relação pais-filhos contém um diferencial de poder inerente entre pais e filhos que, normalmente, mas nem sempre, significa que os pais são mais responsáveis pelo trabalho de reparação. Este é o enorme poder que os pais têm de liderar o caminho para restaurar a conexão. Isto não significa ceder às exigências do filho, mas sim ouvir e validar, como é sugerido no final do artigo. Eu sugiro que isto seja feito não de uma forma “coaching”, mas de uma forma profundamente significativa e terapêutica.

Um vínculo saudável continua a ser fundamental
O artigo também afirma: “Há uma longa e feia história de culpabilização dos pais – especialmente da mãe – por parte dos profissionais”. Cita a “alegada” mãe frigorífica dos anos 40, bem como a mãe rejeitadora e superprotectora “alegadamente” causadora de doenças mentais dos anos 50-1970. A investigação avassaladora e as provas bem documentadas sobre a vinculação podem retirar o tom insincero do “alegadamente” destas afirmações.

Há uma preponderância de provas de que a rutura da ligação entre o bebé e a mãe, os maus-tratos e a negligência na infância, juntamente com outros acontecimentos adversos na infância, predizem fortemente a depressão e outros estados de saúde e dificuldades na idade adulta. Não é culpa; é simplesmente a forma como a natureza funciona. As doenças mentais puramente orgânicas constituem uma percentagem muito pequena dos problemas de saúde mental, apesar da procura de uma causa genética ou neurológica. Já se sabe demasiado sobre traumas epigenéticos e sobre a forma como a nossa fisiologia muda na tentativa de nos adaptarmos ao stress, especialmente durante o desenvolvimento infantil, para perpetuar a mentalidade do “esquece isso”.

O que falta neste artigo são caminhos claros e alargados para a reparação de relações. Isto pode estar dolorosamente em falta na sociedade em geral e são necessárias algumas competências básicas de reparação para facilitar a reconexão familiar. A reparação de relações pode, por vezes, ser um processo muito simples, mas pode ser um desafio para as pessoas olharem para si próprias de forma profunda e reflexiva, assumirem a responsabilidade, pedirem desculpa sinceramente e tomarem medidas correctivas.

Admitir a culpa abrirá as comportas da culpa?
Uma barreira que encontrei ao trabalhar com pais que querem se reconectar com os seus filhos é que os pais podem sentir que assumir a responsabilidade por algo mais do que uma transgressão menor pode abrir as comportas da crítica. Na realidade, quando o reconhecimento do dano é genuíno e sincero, conduz a uma maior paz e crescimento para todos. Alguns filhos adultos nem sequer precisam de um pedido de desculpas, só precisam que o abuso ou o dano parem agora. Alguns não tinham outros recursos de adultos a que recorrer e têm dificuldade em estabelecer relações adultas significativas. Muitos deles estão prontos para voltar a relacionar-se com os pais quando estes podem estar presentes de forma carinhosa. Na minha experiência, todas as crianças querem isso.

Três Passos para Capacitar os Pais que Procuram Reparação com os seus Filhos Adultos
1. Refletir: Reflicta profundamente sobre os erros que cometeu com os seus filhos. Procure ajuda para enfrentar o seu medo de abrir as comportas da crítica. Trabalhe para gerir o seu próprio perfeccionismo, de modo a admitir os seus erros e a identificar os problemas principais. Reserve algum tempo para compreender o impacto que pode ter tido, apesar das boas intenções. Acredite que, ao fazer isto, se torna um pai melhor, e não pior, e pode levar à relação que realmente deseja com o seu filho adulto.
2. Pedir desculpa: “Lamento profundamente ter-te causado dor”. (Não: “Lamento se te causei dor” ou “Lamento que te sintas assim” – estas frases causam mais dano e não reparação). Só depois de compreender como magoou o seu filho, apresente as suas mais sinceras desculpas e acções reparativas, quando apropriado.
3. Seguimento: “Há mais alguma coisa?” Este terceiro passo de fazer seguimento é fundamental. Em vez de esperar que tudo esteja resolvido e que possa ser esquecido, volte a falar com o seu filho noutra altura e pergunte-lhe se há mais alguma coisa que possa fazer para resolver o problema. Não tenha medo de reabrir o assunto. Se tiver medo, diga-lhe que está preocupado e que está disposto a enfrentar o desconforto durante o tempo que for necessário.

Em cada passo, mantenha um coração aberto, com bons limites. Apoie e admire o seu filho adulto por se ter afastado da relação para procurar cura. Eles tiveram a coragem de impedir a continuação de um ciclo pouco saudável e nunca é tarde demais para os pais fazerem melhor.

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