Actualizações sobre a compreensão actual da psicose e da esquizofrenia

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26 de janeiro de 2024

Traduzido por Celina Vilas-Boas

Num novo editorial publicado na revista Psychosis: Psychological, Social and Integrative Approaches, o editor Jan Olav Johannessen e a sua colega do Hospital Universitário de Stavanger, Inge Joa, apresentam uma panorâmica da compreensão moderna da psicose.

Segundo os autores, a maioria dos manuais apresenta teorias desactualizadas sobre a psicose, sendo que surgiu uma grande quantidade de investigações na última década, que lançam luz sobre esta experiência. No seu artigo, os autores apresentam a sua compreensão das causas e do tratamento adequado da psicose em 2021.

“A última década registou um desenvolvimento significativo na nossa compreensão sobre a psicose. Passámos a reconhecer uma lógica mais clara no desenvolvimento das perturbações mentais através de etapas e fases, e compreendemos melhor como as perturbações mentais se desenvolvem gradualmente e como resultado do stress percebido”, escrevem.
“Adquirimos novos conhecimentos sobre as reacções ao stress, mentais e físicas, e compreendemos agora as nossas experiências mentais mais como impressões internas de acontecimentos externos. Compreendemos ainda como o stress e os sistemas imunitários se inter-relacionam, como resultado de stress externo e de acontecimentos de vida, tanto no passado como no presente.”

As disciplinas psi- têm várias compreensões sobre as causas e vários protocolos de tratamento para a psicose. Alguns psiquiatras adoptam uma visão quase puramente biológica da psicose como uma doença cerebral que requer intervenções sob a forma de medicamentos. Outros apontam para factores ambientais e sistémicos e recomendam intervenções sociais e um maior acesso a recursos para remediar os episódios psicóticos. Muitos psiquiatras e psicólogos estão divididos neste tema, resultando em recomendações muito diferentes para os utentes dos serviços, dependendo de onde obtêm a sua informação.

Enquanto muitas abordagens ao tratamento da psicose enfatizam a “falta de insight” (~discernimento) dos doentes e, por isso, recomendam tratamento sem grande contributo do utente (o que pode incluir o uso de tranquilizantes e a institucionalização involuntária), as novas compreensões da doença mental tentam colocar o utente e a sua situação única no centro da compreensão causal e do tratamento.

Existe uma grande discrepância entre a forma como os utentes dos serviços e os profissionais de saúde mental vêem as causas da doença mental, com os utentes a preferirem explicações causais psicossociais e os profissionais de saúde mental a preferirem explicações biogenéticas. Esta discrepância entre a forma como os utilizadores dos serviços e os profissionais de saúde mental entendem as causas da doença mental pode afetar a utilidade do tratamento.

A preferência por explicações biogenéticas da doença mental, como se verifica em muitos profissionais de saúde mental, está associada a um aumento do estigma e da discriminação em relação às pessoas com diagnósticos de saúde mental. Pelo contrário, a preferência por explicações psicossociais está associada a uma redução do estigma.

Recentemente, a principal explicação bio-genética da psicose (a hipótese da dopamina) sofreu um duro golpe quando uma meta-análise não encontrou suporte na literatura. À medida que as explicações biogenéticas se tornam cada vez mais ténues, os investigadores têm encontrado mais evidências que apontam para factores psicossociais. Por exemplo, estudos encontraram fortes associações entre a psicose e os traumas relacionados com a infância e os cuidados de saúde. Investigação também demonstrou que a psicose nos Estados Unidos é inseparável do racismo e da desigualdade estrutural.

O presente trabalho tenta explicar sucintamente os conhecimentos mais actuais sobre a psicose, desde as causas até ao tratamento e à recuperação. Os autores começam por traçar a mudança nas explicações das disciplinas psíquicas para a doença mental ao longo dos últimos 80 anos. As explicações ambientais dos anos 1940 até aos anos 1960 deram lugar às explicações biológicas dos anos 1970 até aos anos 1990. Na década de 2000, as descobertas epigenéticas sugeriram que os próprios genes são influenciados pelo ambiente, empurrando assim o pêndulo de volta para as explicações ambientais da doença mental.

De acordo com investigação moderna sobre hereditariedade, a genética pode ser responsável por apenas 5-6% do risco de desenvolver uma doença mental. Com o afastamento das explicações genéticas para a doença mental, os autores afirmam que, em vez de doenças cerebrais escritas na pedra, a doença mental é um estado mental transitório em constante evolução. Os autores defendem que, portanto, os utilizadores individuais dos serviços não se enquadram facilmente em nenhuma categoria de diagnóstico específica.

Os autores explicam que, em vez de existir em categorias de diagnóstico discretas, a doença mental desenvolve-se em fases que desafiam as nossas tentativas de diagnóstico, manifestando-se tipicamente em sintomas observáveis entre os 15 e os 24 anos. A primeira é a fase pré-mórbida, antes de a perturbação se manifestar. De seguida, a fase prodrómica, ou “fase de alerta”, coincide com os primeiros sinais da doença mental, mais tipicamente sintomas de ansiedade e depressão. Se não iniciarmos um tratamento de alguma forma durante a fase prodrómica, psicoses ou outros sintomas mais extremos podem ocorrer.

O trabalho atual entende a psicose em termos do modelo stress-vulnerabilidade. Este modelo explica que os factores de stress ambiental actuam sobre as nossas vulnerabilidades para causar a psicose. Os autores descrevem como, no âmbito deste modelo, o ambiente e a nossa biologia estão indissociavelmente ligados. Por exemplo, o stress do ambiente desencadeia a produção de hormonas do stress. Essas hormonas do stress podem levar à produção excessiva de alguns neurotransmissores, como a dopamina. Esta sobreprodução faz com que o sistema imunitário ataque os locais de produção de dopamina, enfraquecendo-os e acabando por os destruir.

Os autores defendem que, para melhor tratar as doenças mentais que podem acabar por evoluir para psicose, devemos esforçar-nos por intervir precocemente, de preferência durante a fase prodrómica, quando os sintomas são tipicamente de ansiedade e depressão. Devido à idade típica dos primeiros sintomas de doença mental (15-24 anos) e à cascata de efeitos adversos que aumenta exponencialmente à medida que a doença mental não é tratada, a deteção e o tratamento precoces são de importância primordial.

Para este efeito, Johannessen propõe que os jovens tenham acesso fácil a programas de tratamento que dêem ênfase a aspectos como aconselhamento educacional, aconselhamento jurídico, gabinetes de emprego, médicos de clínica geral e serviços especializados na comunidade.

O seu trabalho atual também recomenda uma divisão diferente dos serviços de tratamento com base na idade. Por exemplo, em vez de haver um conjunto de serviços para as pessoas com idades compreendidas entre os 0 e os 18 anos e outro para todas as outras pessoas, os autores propõem um plano de tratamento para os 0-12 anos e outro para os 13-25 anos, com o objetivo ser desenvolver um plano de tratamento 0-100 anos.

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Jan Olav Johannessen & Inge Joa (2021) Modern understanding of psychosis: from brain disease to stress disorder. And some other important aspects of psychosis…, Psychosis, DOI: 10.1080/17522439.2021.1985162

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