Debaixo da rubrica “A vergonha tem de mudar de lado” a Visão publicou um artigo da escritora e poeta Cláudia Lucas Chéu que ela dedica a outra poeta e autora: Janet Frame.
Nascida em 1924 na Nova Zelândia, a infância de Frame foi marcada pela morte, em ocasiões distintas, das suas duas irmãs. Depois de uma incursão frustrada no mercado de trabalho, é brevemente internada na ala psiquiátrica do hospital local. Relutante em voltar à casa da família devido à violência entre o pai e o irmão, é transferida para um hospital psiquiátrico.
Janet foi pressionada por um professor a pedir o seu próprio internamento numa clínica psiquiátrica. (…) Na clínica onde foi observada, diagnosticaram-lhe esquizofrenia e, por essa razão, foi sujeita a tratamentos extremamente violentos, incluindo eletroconvulsoterapia (eletrochoques), durante um período de internamento que durou oito anos.
Frame esteve até agendada para uma lobotomia. O procedimento foi cancelado porque o seu primeiro livro de contos “A Lagoa” (1951) recebeu um prémio literário de nível nacional nos dias anteriores. A mesma sorte não teve o escultor Lúcio Noeman, cuja lobotomia foi realizada quando as suas obras estavam ainda em exposição no Museu de Arte Moderna de São Paulo.
Foi depois desse prémio que a equipa médica decidiu ler o seu trabalho e considerar que talvez o cérebro de Janet não estivesse assim tão doente. Acabaram por lhe dar alta — e foi então que a sua vida começou verdadeiramente.
Seria fácil descartar a história de Frame como uma triste recordação de outros tempos, aliviar a nossa consciência com a ideia de que estas práticas e estas experiências são parte de um passado que podemos fingir longínquo. No entanto, isso seria ignorar histórias como a de Carlos Rodrigues, tornada pública através do relato do seu advogado, e a de tantas outras pessoas que, não chegando às páginas de um jornal, continuam a encher hospitais.
A autora termina dizendo que a psiquiatria tem ainda poucos meios para curar as doenças mentais, conseguindo apenas mitigar sintomas. Esta parece-me, no entanto, uma conclusão surpreendente ao texto, que ecoa o receio generalizado em opinar sobre um tema que se construiu e se mantém guardado a sete chaves. Eu não sei se Janet Frame alguma vez reuniu critérios para um diagnóstico de esquizofrenia – e não seria nem surpreendente nem novo (e tampouco velho) que diagnósticos psiquiátricos fossem usados para silenciar uma mulher pouco convencional – mas perdi a conta às pessoas que conheci (além daquelas sobre as quais apenas li) que tendo sido, em determinado momento, diagnosticadas, se tenham recuperado (inclusive, no sentido clínico, de remissão de sintomas) – não só à margem, mas apesar de serviços de saúde mental que continuam hoje a perpetrar violência – a quem foi depois dito que, afinal, nunca tiveram doença alguma. É também nesta ginástica que o modelo biomédico alimenta o mito da cronicidade, ignorando a evidência de que as pessoas não só se recuperam, mas que é provável que recuperem.
Janet Frame viveu uma vida longa, preenchida, recebeu vários prémios pela sua obra e foi inclusive considerada como candidata ao Prémio Nobel da Literatura. A quantas não é permitido o mesmo, reproduzindo a trágica história de Noeman e provando real a advertência de Nise da Silveira, uma e outra vez: vão decapitar um artista.
A lembrança da história de Lúcio Noeman é, para mim, aqui inevitável. Não é, no entanto, minha intenção, ao trazer outro artista, alimentar uma ideia de que o sofrimento deve ser suportado em nome da arte. Estas histórias, como a de Ângelo de Lima, que por força do reconhecimento ao valor do seu trabalho artístico chegam a público, longe de serem excepções, abrem portas a um entendimento sobre uma realidade ignorada, historicamente empurrada para longe dos muros das cidades e actualmente empurrada, por discursos que se vestem de científicos, para longe do entendimento e interesse colectivo.
Como o título indica, este é um texto sobre o estigma da loucura, que “continua, ainda hoje, a ser (…) um dos maiores usurpadores da dignidade de uma pessoa“. É assim que se combate o estigma, abrindo espaço para as histórias, para os pontos de humanidade em todas e em cada uma de nós.





