A transformação da saúde mental através de narrativas e metáforas

1
150

Tradução por Mattia Faustini de Locura en Argentina (texto original)

Numa publicação influente, Laurence Kirmayer explora a forma como as narrativas e as metáforas culturais moldam a nossa experiência em matéria de saúde mental e recuperação.


Num artigo académico de grande impacto, Laurence J. Kirmayer, um dos principais académicos na área da psiquiatria cultural do Departamento de Psiquiatria Social e Transcultural da Universidade McGill, apela a uma mudança fundamental na forma como entendemos a saúde mental.

O seu artigo, “Cultural Poetics of Illness and Healing” (Poética Cultural da Doença e da Cura), defende uma abordagem profundamente enraizada nas ciências humanas psicológicas que explora a complexa interação entre linguagem, metáfora e processo de cura.

Kirmayer escreve: “A nossa própria compreensão de nós próprios através de metáforas e construções narrativas desempenha um papel fundamental tanto na regulação interna como no envolvimento com os nossos ambientes sociais, que são em grande parte constituídos por interacções contínuas com os outros. A linguagem de que dispomos para articular e exprimir a nossa experiência altera a própria natureza dessa experiência. É o que acontece mesmo com as experiências aparentemente persistentes de dor e sofrimento, tal como acontece com as histórias que emprestamos ou inventamos para levar a nossa vida por diante e nos projectarmos em circunstâncias novas e melhores.

A consequência é que uma imagem adequada da emergência da experiência da doença e da sua transformação através de práticas de recuperação tem de desvendar processos encarnados de imaginação, bem como processos sociais de auto-construção e posicionamento através de compromissos pragmáticos, materiais e discursivos com as possibilidades culturais que constituem os nossos mundos e nichos locais. Embora grande parte deste processo de criação de sentido seja organizado e comunicado através de narrativas, as metáforas desempenham um papel central nos esforços para dar sentido aos sintomas e ao sofrimento, tanto para os doentes como para os terapeutas“.

No centro da investigação de Kirmayer está a ideia de que a nossa compreensão e experiência de saúde mental é largamente determinada pela ciência cognitiva da linguagem e da metáfora, combinada com influências culturais. Esta abordagem realça o papel crucial da metáfora tanto na expressão como na compreensão das problemáticas da saúde mental. Aprofundando o conceito de “poiesis” – o ato de criação através da linguagem – Kirmayer ilustra a forma como a nossa visão do mundo e os nossos métodos de lidar com o sofrimento são intrinsecamente elaborados através deste processo.

O trabalho de Kirmayer revela a forma como as narrativas individuais e colectivas, profundamente enraizadas na história cultural e na comunidade, influenciam de forma crucial as nossas experiências, expressões e formas de lidar com o sofrimento psíquico e emocional. Defende que as metáforas, profundamente enraizadas nos antecedentes culturais e pessoais, moldam a forma como percepcionamos e articulamos os problemas de saúde mental. Estas metáforas funcionam como ferramentas cognitivas, trazendo novas perspectivas sobre situações familiares e influenciando as nossas ideias e acções.

Por exemplo, as metáforas podem transformar a forma como encaramos certas experiências ou emoções, dando-lhes novas conotações e implicações. Podem servir como ferramentas cognitivas, trazendo novas perspectivas sobre situações familiares e moldando assim a nossa compreensão e as nossas acções. Kirmayer acredita que este processo de pensamento metafórico é crucial em psiquiatria e psicologia, uma vez que afecta tanto a compreensão da doença e da recuperação por parte do paciente como do terapeuta.

Ao explorar a “poética cultural” da doença, Kirmayer sublinha a importância da expressão metafórica, demonstrando a interligação dos processos físicos e discursivos nas nossas experiências de saúde. Baseando-se na Cognição 4E, Kirmayer mostra uma relação recíproca entre os nossos estados corporais, o processo cognitivo e o discurso social em que estamos envolvidos.

Kirmayer argumenta que a inferência ativa desempenha um papel crucial nos nossos processos linguísticos, ajudando-nos a prever cenários futuros e a imaginar situações possíveis, o que, por sua vez, nos ajuda a navegar no mundo social. No entanto, salienta que os modelos computacionais de metáfora na inferência ativa não captam totalmente a riqueza de significados derivados de histórias e contextos culturais.

Kirmayer trata também da mudança, no DSM-5, da noção de síndromes ligadas a conceitos culturais de sofrimento, salientando a complexidade da experiência sintomática. Explora a forma como as explicações culturais da doença se baseiam frequentemente em metáforas e não em modelos inteiramente pormenorizados. Esta abordagem traz à luz do dia a importância das metáforas na experiência corporal, na produção de sintomas e nos mecanismos de sobrevivência.

Além disso, Kirmayer analisa o poder transformador das metáforas na psicoterapia, ilustrando a forma como os terapeutas as utilizam para reformular a compreensão e as respostas dos pacientes aos problemas emocionais e comportamentais. Faz uma análise do impacto do colonialismo na linguagem e nas metáforas e salienta a importância de terapias culturalmente informadas, como a Terapia Cultural Psicohistoriográfica na Jamaica.

O seu artigo também destaca o papel fundamental da metáfora na formação e na prática médica. O autor defende uma compreensão mais profunda das metáforas utilizadas na medicina para reforçar a relação entre as experiências dos médicos e dos utentes. Este conceito estende-se à poética social na educação médica, centrando-se na compreensão das histórias e dos mundos de vida dos doentes para além dos diagnósticos clínicos.

O trabalho de Kirmayer oferece uma visão da complexa relação entre linguagem, cultura e saúde mental, salientando a necessidade de uma compreensão mais matizada dos cuidados de saúde mental que transcenda as abordagens biomédicas tradicionais.

***

Kirmayer, L. J. (2023). Poética cultural da doença e da cura. Transcultural Psychiatry, 60(5), 753-769. https://doi.org/10.1177/13634615231205544

1 COMENTÁRIO

  1. I do trust all the ideas youve presented in your post They are really convincing and will definitely work Nonetheless the posts are too short for newbies May just you please lengthen them a bit from next time Thank you for the post

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui