O diagnóstico de Perturbação Borderline da Personalidade é frequentemente utilizado para descredibilizar as experiências dos doentes

Um novo artigo utiliza o conceito de injustiça epistémica para argumentar que a Perturbação Borderline da Personalidade silencia as vozes dos doentes e perpetua estereótipos prejudiciais.

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Traduzido de Mad in America por Mattia Faustini

Apesar de 40 anos de debate e de apelos à sua eliminação por parte de pessoas com experiência de vida, a Perturbação Borderline da Personalidade (PBP) continua a ser uma categoria diagnóstica controversa no DSM-V e na CID-11.

Um novo artigo publicado na Cambridge University Press por Jay Watts, do Centro de Investigação em Saúde Mental da Universidade de Londres, defende a remoção da PBP com o apoio do conceito de “Injustiça Epistémica” de Miranda Fricker.

Este conceito ilustra a forma como o rótulo de PBP diminui a credibilidade de um indivíduo e permite perpetuar um mal-entendido generalizado sobre as suas experiências. A aplicação das lições deste conceito sublinha a necessidade de movimentos na psiquiatria que valorizem a experiência vivida e o conhecimento dos utilizadores dos serviços.

Watts apela à remoção do rótulo, o que, segundo ela, seria benéfico para investigadores, clínicos e pacientes:

“Manter o PBP como diagnóstico de facto mantém-nos num impasse que mina as vozes dos pacientes que nos têm dito persistentemente que este rótulo adiciona ‘insulto à injúria’. O conceito de injustiça epistémica proposto por Miranda Fricker ajuda a iluminar a forma como esta situação afecta a subjetividade e o discurso, selando hermeneuticamente os doentes em modos de pensar que não se baseiam em evidências, resultando no sufocamento do testemunho (alterando ou retendo as narrativas de uma pessoa) e no silenciamento do testemunho (descartando a capacidade de um interlocutor para prestar um testemunho digno) que impedem explicações mais assertivas.”

Watts escreve que a origem da PBP no DSM-III, em 1980, foi muito influenciada por pressões sociais predominantes, uma tendência que se mantém até hoje. Ela considera que a sua inclusão na CID-11 foi o resultado da “sucumbência à pressão do lobby político”, resultando na frustração de investigadores e clínicos perante uma categoria que carece de validade científica e que se sobrepõe significativamente a outras categorias. No entanto, o mais importante é que a PBP tem efeitos prejudiciais significativos para o indivíduo diagnosticado. Para realçar esta preocupação, Watts utiliza o conceito de “injustiça epistémica” de Miranda Fricker.
Ela explica como as duas formas primárias de injustiça epistémica, quando aplicadas à investigação em saúde mental, podem ajudar a concetualizar a dinâmica do poder em psiquiatria. Em primeiro lugar, a injustiça testemunhal ocorre quando a credibilidade de um interlocutor é desvalorizada devido a tendências prejudiciais. Em segundo lugar, a injustiça hermenêutica ocorre quando uma “falta colectiva de recursos interpretativos impede a compreensão de certas experiências sociais de grupos específicos”.

Watts dá o exemplo de “Laura”, uma pessoa com experiência de PBP, para demonstrar a aplicação do conceito. Ela destaca especificamente a forma como as suas experiências foram invalidadas e silenciadas, juntamente com a receção de estereótipos nocivos associados ao rótulo. Quando Laura defendeu que as suas experiências eram o resultado de um trauma e contestou o seu diagnóstico, a sua narrativa foi logo desacreditada. Dado que ela tinha sido rotulada com PBP, uma construção que poderia ser aplicada a muitos comportamentos, particularmente aqueles tradicionalmente associados e usados para patologizar a feminilidade, um clínico pode considerar como sintoma a recusa em aceitar o diagnóstico.

Este parece ser um dos maiores perigos da construção. O PBP patologiza um indivíduo em vez de uma condição e enquadra os “sintomas” como inerentes ao seu carácter, ao contrário de outras perturbações não relacionadas com a personalidade, como a depressão ou o TOC. Isto permite que os clínicos, a sociedade e até os próprios indivíduos perpetuem ou interiorizem os estereótipos nocivos da perturbação borderline da personalidade.

Watt explica a perceção do rótulo de PBP como uma forma de “culpabilização medicalizada da vítima”, em que os clínicos culpam um indivíduo por problemas que surgem de fontes externas, como traumas passados ou viver num mundo neurotípico que persistentemente coloca os problemas no paciente.

A autora conclui o artigo com apelos à eliminação do rótulo, argumentando que:

“Uma comunicação clara pode aliviar os temores sobre o que se pode perder com a eliminação do rótulo de PBP, em particular, destacando os problemas científicos e éticos do conceito e enfatizando a disponibilidade de explicações alternativas mais favoráveis para manter os direitos em matéria de diagnóstico para aqueles que deles necessitam. Outros diagnósticos mais validantes, como o autismo, a perturbação bipolar, a perturbação disfórica pré-menstrual e a PSPT complexa, não só explicam melhor a heterogeneidade como estão isentos do ataque ao carácter, com a sua devastadora deflação da credibilidade dos testemunhos, ainda que devam estar disponíveis juntamente com vias não medicalizadas para os sobreviventes de traumas, caso estes o desejem.”

Este artigo realça a importância de ouvir e abordar as experiências da vida real dos indivíduos rotulados com perturbações da personalidade. Os argumentos de Watt alinham-se com os pontos de vista de muitos outros que sugerem que a PBP já não deveria ser reconhecida na prática clínica. Isto é especialmente importante tendo em conta os impactos negativos de ser rotulado com esta perturbação, os diagnósticos erróneos baseados em diferenças culturais ou de género e a investigação que indica que os tratamentos farmacológicos não são eficazes.

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Watts, J. (2024). The epistemic injustice of borderline personality disorder. BJPsych International, 1–5. https://doi.org/10.1192/bji.2024.16

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