Antidepressivos e Disfunção sexual pós-SSRI

2 de março de 2024: o The Guardian pubica mais um artigo sobre os efeitos a longo prazo dos antidepressivos. 

O artigo, assinado por David Cox, refere que, após o rigorosíssimo confinamento de Melbourne em 2020, Rosie Tilli, uma enfermeira de 20 anos, buscou alívio para sua crescente ansiedade e depressão. Receitada com Escitalopram, um inibidor seletivo da recaptação de serotonina amplamente utilizado (SSRI), Tilli veio a descobrir uma queda alarmante na libido e uma incapacidade de experimentar qualquer sensação sexual. 

O seu sofrimento é emblemático de uma questão mais ampla – Disfunção sexual pós-SSRI (PSSD – Post SSRI Sexual Disfunction), reconhecida apenas em 2019 pela Agência Europeia de Medicamentos, apesar de relatos emergentes desde o início dos anos 90.

A prescrição generalizada de SSRIs, incluindo mais de 80 milhões emitidos pelo NHS (National Health System, do Reino Unido) em 2023, levanta preocupações. O psiquiatra David Healy enfatiza que esses medicamentos, frequentemente dados a indivíduos com sintomas mais leves, podem levar a consequências graves e de longo prazo. PSSD, caracterizado por dormência genital, falta de libido e outros efeitos colaterais sexuais, tem sido minimizado na psiquiatria convencional.

Pacientes como Tilli sentem-se abandonados por profissionais de saúde, lidando com o que chamam de “gaslighting médico”. A indústria farmacêutica, sob escrutínio da PSSD Network, mostra relutância em financiar pesquisas sobre causas biológicas e tratamentos potenciais. Apesar dos apelos por responsabilidade, empresas como GSK e Eli Lilly oferecem pouca indicação de futuros financiamentos.

O artigo refere profissionais que acreditam que soluções terapêuticas podem existir, seja através da reutilização de medicamentos ou da utilização de tecnologias emergentes para direcionar o epigenoma. Os desafios incluem as diversas causas do PSSD, exigindo terapias personalizadas, e a necessidade de fundos para realizar ensaios clínicos.

Diante dos suicídios dentro da comunidade PSSD, Tilli enfatiza a urgente necessidade de conscientização, financiamento e pesquisa para evitar mais desespero e abrir caminho para tratamentos promissores. O sofrimento silencioso do PSSD exige reconhecimento e ação por parte da comunidade médica e da indústria farmacêutica.

Tiago Pires Marques
Tiago Pires Marques
Investigador Principal FCT no Centro de Estudos Sociais (CES), Universidade de Coimbra desde 2014. Doutorado em História no Instituto Universitário Europeu de Florença, com a dissertação Crime and the Fascist State (Routledge, 2016). Realizou o seu pós-doutoramento entre 2008 e 2013, com o projeto “Ciência, religião e subjetividades”, no Institut d’Histoire et de Philosophie des Sciences et des Techniques (Ecole Normale Supérieure - Universidade de Paris 1), Cermes3 (CNRS) e na Universidade Católica Portuguesa, no âmbito do qual coordenou o livro Experiências à deriva. Paixões religiosas e psiquiatria na Europa - Séculos XV a XXI (Cavalo de Ferro, 2013). Investiga a história dos modelos de saúde mental na sua relação com a medicalização da vida e com a história dos direitos humanos. Interessa-se especialmente pelos saberes, propostas políticas e alternativas à psiquiatria produzidas pelos movimentos de utentes no campo da psiquiatria. De entre as suas publicações recentes, destaca-se o livro Legitimidades da Loucura. Sofrimento, luta, criatividade e pertença (Edufba – Editora da Universidade Federal da Bahia, 2018; coord. em colaboração com Mônica Nunes) e A Saúde Reinventada: Novas perspetivas sobre a medicalização da vida (CES/ Almedina; coord. em colaboração com Sílvia Portugal).

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